Pedro Doria: “Fifa, PES e o erro dos clubes”

Tomás tem 7 e, Felipe, 6. São muito diferentes. Tom é paulistano e, Pipe, carioca. O mais velho tem uma queda por dinossauros e, o caçula, por super-heróis. Vez por outra sai um arranca-rabo. Mas uma coisa os une: o futebol. O Flamengo. E isso é um problema quando se põem perante a TV para uma partida no game Fifa. Quase não há times brasileiros. Flamengo e Corinthians são as ausências marcantes.


Explica-se, para quem não é do ramo dos games. Há dois jogos para quem deseja uma partida de futebol virtual. Fifa, da americana Electronic Arts, e Pro Evolution Soccer, da japonesa Konami. Há inúmeras discussões a respeito de qual game é mais fiel ao jogo real, mas, do ponto de vista da qualidade gráfica, o Fifa ganha fácil. Estádios, torcida, até a textura do gramado são mais nítidos e, os craques, muito mais parecidos com os de carne e osso.
Além do mais, há os números. Conforme o VGChartz, no último ano foram vendidas 1,22 milhões de cópias de PES 2017, penúltimo jogo da série. E 17,05 milhões de Fifa. Não há comparação: um é muito mais jogado — e conhecido — do que o outro.
E, no entanto, os principais clubes brasileiros estão no PES, não no Fifa. O motivo é simples: o PES paga, e razoavelmente bem, pelo uso de imagem. O Fifa, não. Ainda assim, o dinheiro não é coisa do outro mundo. Ao fechar este negócio, os clubes brasileiros estão, talvez, cometendo um erro estratégico.
O mundo, convenhamos, é digital. E o digital se embrenha na vida de meninos que começam uma vida de entusiasmo com o futebol de muitas formas. Começa por assistir aos jogos. Os caminhos são inúmeros: de canais a cabo exclusivos à TV aberta, passando pela internet. Após os jogos, há as muitas variações online dos vídeos de melhores momentos. O tempo dos gols da rodada nas noites de domingo já se foi há muito.
O resultado concreto deste excesso de futebol é simples: os olhos, mesmo pouco experientes, se voltam para a qualidade. Tomás e Felipe conhecem a escalação do Flamengo. No estádio, reconhecem os jogadores. Apontam, pedem marcação, cobram troca de passes. Estão em casa, como se grandes fossem. Mas, no Brasil, é só. Não conhecem os jogadores do Palmeiras, os do Atlético Mineiro ou os do Grêmio. Não conhecem, sequer, os dos tradicionais rivais locais — Fluminense, Vasco, Botafogo.
A qualidade chama, pois é. As escalações que conhecem são as do PSG, Barcelona e Real Madrid. Do Bayern. É porque veem mais estes jogos.
A experiência de futebol em sua geração não se limita aos jogos profissionais. Tom e Pipe jogam bola na escola, no clube, nos plays da vida. Quando jogam com seus amigos, todos vão com camisas de clube. A do Flamengo, claro. Tomás tem uma do Corinthians — seu time na cidade em que nasceu. De resto, os suspeitos de sempre: PSG, Real Madrid, Barcelona, Bayern, de seleções. Com seus amigos não é diferente. E há, claro, o videogame. Que termina por ser o Fifa. Os craques que escolherão para representá-los são Neymar, Cristiano Ronaldo, Messi. E os clubes, europeus.
Futebol exige bons adversários: equipes para se temer, jogadores do outro lado que, quando pegam na bola, nos fazem prender a respiração. Uma vitória tem mais valor quando veio carregada de tensão. E, sejamos sinceros: faz parte da vida carregar da infância a memória de duas ou três derrotas particularmente sofridas.
Futebol é também share of mind. A concorrência europeia está vindo com força. Vai aumentar. Estar fora do Fifa é ceder terreno fundamental.
(Aliás: mesmo no Flamengo os dois têm lá suas diferenças. Um preferiu que em sua camisa viesse escrito Zico. O outro, Guerrero.)
Fonte: Pedro Doria/Estadão
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