Arthur Muhlenberg: “Pão ou Pães é Questão de Opiniães.”

Na quinta-feira o Flamengo venceu um jogo seminal para a manutenção da própria honra em 2017. Venceu da maneira mais flamengo possível, dando bobeira no início, com jogadores se contundindo gravemente, jogando na mais pura escola do vamo-lá-porra. Impulsionado pela empolgação da arquibancada o Flamengo arrancou a vitória a fórceps e obteve a mínima vantagem do empate para o jogo de volta.


Quem foi ao jogo, e não foram muitos os que se aventuraram num fim de mês de carestia, saíram felizes. Vitória em jogo decisivo é uma das pedras angulares da dieta dos rubro-negros e já fazia uma etapa que não provávamos do requintado acepipe. Tudo indicava que teríamos uma sexta-feira sensacional, com o dever de casa feito e a arcoirizada toda rilhando os dentes para amaldiçoar a nossa sorte. Infelizmente não foi o que aconteceu.
Quem pode perder algum tempo nas redes sociais viu uma histérica reação de alguns torcedores do Flamengo a um nano acontecimento, à uma pratica rotineira entre os clubes que disputam um campeonato nacional; o empréstimo do CT para um clube de fora da cidade jogar o seu rachão. Um assunto de diminuta relevância, e absolutamente nenhum poder de influência nas pretensões esportivas do Flamengo, mas que após ser anabolizada pela inescapável exposição a que o Flamengo está condenado por sua grandeza, se tornou um ótimo veículo para a universalização da ignorância.
É meio que uma epidemia, alguém fica indignado porque o Flamengo não pode emprestar o CT para o Sport, ignorando que o Flamengo quando vai ao Recife jogar com Náutico ou Santa Cruz às vezes treina na Ilha do Retiro, e logo aparece outro ignorante reproduzindo a estultice. Aí um jornalista identifica o filão, um oposicionista aproveita o embalo, um blogueiro oferece sua opinião não solicitada, alguém faz um meme esperto e em pouco tempo tá todo mundo se ocupando, pelos motivos mais errados, de uma questiúncula sem qualquer importância. Repito, sem qualquer importância, nem mesmo simbólica. Desimportante, mas que serve aos mais variados propósitos, inclusive os menos nobres.
Comigo pelo menos foi assim que aconteceu. Li uns tweets raivosos, alguns de gente que muito considero, detonando a postura do Flamengo. Em pouco tempo, e sem qualquer reflexão mais profunda, estava eu lá me juntando ao zurrar geral, gastando caracteres e, claro, do alto da minha vasta experiência em administração de um departamento de futebol, ensinando aos padres, vigários e monsenhores como deve ser rezado um Pai Nosso de raiz. Mal minha.
Mas não é que eu ou a torcida do Flamengo em particular estejamos chatos, ou chorões. Não! Esse é o modo como as redes tem reagido à qualquer coisa, seja ela boa ou ruim. Com muito ruído, sem nenhuma reflexão e o que é pior, evocando a oca logorreia da tradição, família, propriedade e porte de arma. Sai pra lá com esse fundamentalismo de ocasião! Bastou que eu me afastasse por alguns minutos do Twitter e pensasse um pouco sem a influência nefasta dos lacradores para perceber o quão imbecil tinha sido tudo que eu dissera e twitara até então. Fazer o quê? O determinismo geográfico já definiu que o homem é produto do meio. Quando estamos cercados pela ignorância é natural que fiquemos ignorantes também. Felizmente essa moléstia tem cura. Mudei de opinião na boa.
Todo o alvoroço sobre o não assunto do CT se deve em parte ao espírito do capitão William Linch (procurem saber quem foi) que paira sobre o twitter, onde é facilmente incorporado por médiuns bastante interessados em obter repercussão, seja por este ou aquele motivo. E em parte porque o presidente Bandeira está vivendo a plenitude de sua Lua de Fel com a torcida. Que é, salvo a conquista de títulos relevantes, bastante comum no último ano de mandato de qualquer presidente. Já foi decretado que nada que ele faça ou diga está certo.
Se Bandeira tivesse negado o CT para o Sport a grita seria imensa, se o liberasse, como acabou fazendo, o faniquito seria ainda maior. Não tinha saída. Mas é forçoso dizer que isso sequer era um assunto que devesse ser tratado pelo presidente, era pra ser resolvido na esfera da zeladoria do clube. Em uma linguagem mais pedestre, essa pica era do aspira. Que fase vive o Bandeira. Se amanhã ele andar sobre as águas da Lagoa Rodrigo de Freitas vai ser acusado de não saber nadar. Bandeira sabe que tem grande responsabilidade em tudo que acontece com o Flamengo, espero que alguma alma boa já o tenha avisado que se ficar puto é pior.
A verdade incoveniente é que tem muito rubro-negro por aí que, por insegurança, ignorància ou excesso de juventude, ainda desconfia da legitimidade, da exclusividade e da intransitividade do Campeonato Brasileiro de 1987 que conquistamos no campo em 1987 mesmo. E não em um tribunal qualquer em 88, 89, 94, 2010 ou 2017. Ficam parecendo cachorro mordido por cobra, que entra em pânico ao avistar a mais inofensiva das linguiças. E entre todas as linguiças inofensivas que existem não tenho conhecimento de alguma que seja mais inofensiva que o nosso genérico setentrional, o time mais água de salsicha do Brasileiro.
Gostamos sempre de sublinhar a grandeza, a distância astrofísica que nos separa dos outros times e a imperturbabilidade zen do Flamengo diante das gracinhas protagonizadas pelos habitantes das Lilliput da vida. E tá certo, nós somos foda mesmo. Mas nesse caso específico de empréstimo de CT quem fez o papel de time pequeno não foi o genérico. Demos muito mole e nem comemoramos nossa vitória, preferimos colocar em cartaz quem não merece qualquer destaque. Vacilo. Nenhum time se faz grande pela intensidade ou pelo volume do ataque de pelanca de seus torcedores. Taí o Botafogo, eterno médio, pra comprovar.
A uma certa altura da peça o príncipe Hamlet diz pro seu tio Cláudio que “o ser grande não é se empenhar em grandes causas: grande é quem luta até por uma palha, quando a honra está em jogo” e eu, que só vou ao teatro por causa do ar-condicionado e dormi no segundo ato inteiro, digo que essa regra só vale quando a palha tiver alguma serventia. Se a luta for só pra pagar de macho é apenas mais uma história ruim contada por um idiota, cheia de som e fúria e sem sentido algum. Quem sabe esse momento desagradável da nossa micro história não sirva de lição pra alguém? Pra mim serviu.
Mengão sempre
Por: Arthur Muhlenberg/ República paz e amor
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