Um Flamengo sem sede

Foto: Divulgação
CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

Quando conquistou o Campeonato Carioca em maio, diante do Fluminense, este Flamengo parecia ter sido enfim envolto por uma determinação, uma sede de conquista. Um gosto pela taça. Ledo engano. Passados meses após decepções na Libertadores e no trotar do Campeonato Brasileiro, o Rubro-Negro somou mais um item em sua lista de frustrações em 2017. A derrota nos pênaltis na final da Copa do Brasil para o Cruzeiro é frustrante não apenas pelo resultado em si. Mas por carregar todo o conjunto da temporada, revelando que a sede pela conquista ainda não foi assimilada no Ninho do Urubu. Além de tática e técnica, há de se ter postura para abraçar grandes glórias. Este Flamengo ainda não tem.

É um conjunto de fatores que determina o resultado final, apresentado em campo, e reflete no comportamento da equipe. Diante das possibilidades impostas pelo regulamento, Reinaldo Rueda armou seu time no 4-2-3-1 com o que tinha de melhor. Um time superior em relação ao que teve um desempenho melhor do que o próprio Cruzeiro 20 dias antes, no Rio. No jogo de ida, no Maracanã, o Flamengo acabou penalizado por um erro da gestão do futebol, ao permitir no desenrolar do ano que um menino, Thiago, estivesse sob a trave em uma decisão tão importante para o momento do clube.

Sim, pois a expectativa fora de campo já era enorme em janeiro. Certamente a maior na gestão Bandeira de Mello, iniciada em 2013. Estruturado, refeito financeiramente, com alto poder de investimento, CT pronto e estádio próprio, o Flamengo tinha tudo para decolar. E insistiu em tropeçar em si próprio justamente no futebol. Colecionar erros e insistências. Peguemos apenas o exemplo do zagueiro Juan. Melhor homem em campo na final, o veterano foi preterido por meses pelo estabanado Rafael Vaz. Cuellar cansou de vestir o colete de reservas e assistir a Márcio Araújo. Nesta postura de plena acomodação com erros insistentes, o elenco campeão carioca se tornou-se aos poucos apático nos momentos decisivos.

Foi assim no Mineirão. Fora uma ou outra exceção como Guerrero e Juan, os jogadores do Flamengo encontravam dificuldade para encaixar o tom exato de encarar a decisão. Por vezes flertavam com a displicência. Em outros momentos, pareciam nervosos. Faltava gana para pressionar o Cruzeiro e resolver a parada em 90 minutos. Era uma necessidade. Por mais que houvesse confiança em uma intervenção divina, em um lado místico com Muralha, a desvantagem em uma possível decisão de pênaltis era clara. Mesmo sem o gol qualificado fora de casa, o regulamento não era favorável. A decisão por pênaltis seria um caminho muito mais espinhoso para o Flamengo, que pouco fez para evitá-lo.

O Cruzeiro apresentou um futebol melhor do que a covardia do Maracanã. Tentou, ao menos, agredir o rival em algumas oportunidades, embora cedesse o campo com facilidade e estivesse muito mais postado no 4-4-2 no início do jogo. A perda de Raniel, lesionado com cinco minutos, apenas acentuou a postura cruzeirense. Campo ao Flamengo, saídas rápidas para tentar achar o jogo. De início, tentou trabalhar muito em cima de Pará, com Alisson e De Arrascaeta caindo pelo setor e buscando Thiago Neves dentro da área. O camisa 30 quase marcou em bom lance, ao chutar por cima. Mas a bola voltou ao Flamengo.

Com a redonda no pé, o time tentou ditar o ritmo do jogo. Mas demonstrava uma apatia incrível. Abusava de toques laterais ou lançamentos. Encontrava problemas para construir, muito em função da inexplicável troca do papel dos volantes. Cuellar geralmente inicia o jogo e desafoga pelo meio. Arão tenta avançar ao ataque e infiltrar na área. Seria boa opção, já que Murilo saía para ajudar Diogo Barbosa na marcação de Berrío e deixava um espaço na área. Mais alinhados, o camisa 5 era quem recebia a bola dos zagueiros para iniciar o jogo. O colombiano, mais à frente, tentava ajudar na armação. Não deu certo. O Cruzeiro cedia a bola, mas também poucos espaços. A rigor, a melhor chance foi a falta cobrada por Guerrero na trave. Um peruano solitário.

Pois o Diego mais cerebral, que fazia o jogo girar por si, como o eixo rubro-negro, parece não existir mais depois da lesão no joelho direito. Mais uma vez o camisa 35, sem espaço na frente, recuou demais, quase como um volante, queimando a comunicação com Guerrero. Além disso, vive má fase técnica. Carrega demais a bola e ao primeiro combate adversário vai ao chão, ainda que não seja falta. O Flamengo precisava de Diego, mas ele não apareceu. Com a pressão cruzeirense na saída de bola, erros surgiram. Arão atravessou bola até o pé de Robinho. Pará suava diante de Alisson e errava demais. Berrío, marcado por Diego Barbosa e Murilo, não tinha como desenvolver drible ou velocidade. Trauco, qualificado ofensivamente, estava mais preso. Um time distante de qualquer espírito da decisão. Claramente seria preciso mais para levantar a taça.

Mas a calma misturada com apatia voltou ao segundo tempo. O Cruzeiro adiantou o time um pouco mais, ensaiou um 4-2-3-1 com Rafinha na vaga de Robinho pela direita. Thiago Neves participou mais do jogo. Assim, o time da casa conseguiu uma pressão por dez minutos, com um Flamengo abafado e sem conseguir sequer tocar a bola lateralmente. Alisson era ainda a melhor válvula de escape, em cima de Pará. Após alguns cruzamentos que assustaram a defesa rubro-negra, o time cruzeirense voltou à velha postura de aguardar o rival. Era até confortável. Caso a decisão fosse para os pênaltis, a vantagem era clara por ter Fábio. E o Flamengo, com a bola no pé, pouco fazia. Tinha uma calma sem sentido. Dos zagueiros para os volantes. Dos volantes para os zagueiros. Toque, toque, toque e…nada.

Rueda não trocou nomes, mas tentou ajustar o que estava torto. Aproximou Diego de Guerrero e Cuellar passou a ser o homem para iniciar as jogadas. Mas o Cruzeiro se fechava bem, travando até as pontas com Berrío e Everton. E com Diego muito pouco inspirado, o Flamengo voltava a ter dificuldades na criação. Tinha a bola, mas não era dominante no jogo. Deveria agredir. Preferiu se acomodar. Guerrero era um solitário lutador contra os zagueiros adversários. Ganhava lançamentos, matava a pelota, mas praticamente não tinha com quem dialogar. A irritação do peruano aumentava com o passar dos minutos. Era ele a ilha de inconformismo diante de um time que parecia aceitar de bom grado a decisão por pênaltis.

Talvez Vinicius Junior, com seus dribles e o ar de irresponsabilidade juvenil, fosse ideal para dar vida a um Flamengo que já parecia morto. Contagiar os companheiros que pareciam cumprir apenas mais um dia burocrático na profissão. Rueda preferiu Paquetá na vaga de Everton e Rodinei na de Berrío. Não mudou. Na reta final, o jogo ficou até mais franco, muito pelo cansaço de ambos os lados. Os espaços foram aparecendo, a marcação afrouxando. Mas faltava a ambos aquele desejo de conquistar a taça nos 90 minutos. Aí, mais um grande erro do Flamengo.

Alex Muralha, claramente, é suscetível a críticas mais pesadas. Sente as falhas e demora a curá-las. Ao errar um tapa na bola em cruzamento de Diogo Barbosa e quase entregar o gol a De Arrascaeta, que cabeceou para fora, tornou-se de novo muito inseguro. Parecia duvidar de si e temer a chegada dos pênaltis. Para sua infelicidade, os companheiros pouco ajudaram a evitar esse grande temor ao fim.

A decisão para os pênaltis apenas confirmou o óbvio: o goleiro rubro-negro se adianta nas cobranças e torna fácil a tarefa dos adversários. Os três primeiros cruzeirenses a bater apenas o deslocaram, com chutes até fracos. E o Flamengo teve em Diego o seu algoz, com a cobrança ruim, à meia-altura como fora diante do Palmeiras, a sua definição do quarto vice-campeonato na Copa do Brasil. Um título merecido ao Cruzeiro, mesmo com um jogo muito pragmático. Ganhou por ser mais competente.

O Flamengo agora lida com sua aposta. E foi alta. Ao fracassar na Libertadores e abandonar o Campeonato Brasileiro, o time jogou suas fichas na Copa do Brasil para salvar o ano dito mágico – a temporada na qual, finalmente, o clube disputaria todas as competições até o fim. Na Copa do Brasil, isso até ocorreu. Rueda foi competente ao reequilibrar o trabalho deixado por Zé Ricardo, que já esfarelava. Mas o vice-campeonato e a apatia no jogo derradeiro se somam aos fracassos ao longo da temporada, reflexos diretos da má gestão de futebol. Nesta quinta-feira, o clube vai acordar com a medalha de prata do mata-mata, em sétimo lugar no Campeonato Brasileiro e com dois clássicos pela Copa Sul-Americana. Ainda que o título internacional de  menore renome chegue será pouco para tamanho investimento. O Flamengo que vislumbrou conquistas após o Campeonato Carioca sumiu. Está pálido, sem sede de conquistas, jogado ao balançar do mar. Não rema. Culpa da estrutura do navio e de seus comandantes. A aposta fracassou. E que se atente para a realidade de outra tempestade já a caminho…

Ao fracassar na Libertadores e abandonar o Campeonato Brasileiro, o time jogou suas fichas na Copa do Brasil para salvar o ano.

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