O Flamengo não é mais o mesmo

Criança torcedora do Flamengo pobre no Maracanã - Foto: Daniel Vizeu
ESPN FC: Por Marcos Almeida

Ganharemos, perderemos; como sempre ganhamos, como sempre perdemos. Só não haverá vitórias nem derrotas no dia em que não houver Flamengo. E Flamengo é garra, luta, entrega. Para ser campeão do mundo ou fugir da Série B. O time que bateu o Liverpool e o que caiu para o Santo André tinham um fator comum: a necessidade de se doar.

Chegamos a uma quarta-feira, 13 de setembro de 2017, e o conjunto alvo de nossa torcida empatou com uma fraca Chapecoense, que bem merecia ter vencido por 2 a 0, ou mais. Na saída de campo, nenhuma indignação em vermelho e preto. Previsível; foram além de 90 minutos sem qualquer entrega. Mais uma das tantas partidas em que esse grupo de homens não sentiu a obrigação de inundar o gramado de suor.

Não se doam pois não é preciso se doar. Não há cobrança, não há obrigação. Não há sentimento. Fazer corpo mole para derrubar treinador, por não receber salário, é uma coisa. Não lutar por não haver necessidade de lutar é completamente outra.

Isso aí que está na final da Copa do Brasil pode herdar o nome, levar as cores, mover a massa e vestir o Manto. Jamais será Flamengo.

Um time, em vermelho e preto, que não sente a urgência de correr. Não precisa lutar porque a derrota não é vista com maus olhos. Elenco milionário de uma agremiação que deu o sétimo vexame consecutivo na Copa Libertadores da América. Eliminada, na fase de grupos, pelo Atlético Paranaense, de Carlos Alberto e Grafite. Um hoje sem clube; o outro na zona de rebaixamento à Série C.

Não fez mal ser eliminado. Não fez mal perder para Universidad Católica e Atlético Paranaense. Não apenas Zé Ricardo comemorou a derrota, pois a equipe "havia jogado bem”. A torcida engoliu, como uma bala que adentra a boca já escorregando pela garganta. Bala, de revólver, foi a do San Lorenzo... Era de borracha.

20 dias depois, já recuperada do tiro, a turma gritava: “Rodrigo Caetano é nosso rei”. Nada mudou. Derrotas continuam sendo aceitas e, cada vez mais, o grupo de atletas que veste vermelho e preto não se vê na obrigação de se entregar. A torcida não se abate, o presidente acha uma delícia. Vida que segue.

Vida de ilusões. “Esperava-se muito de uma equipe que pouco faz”. Mentira. Não se esperava nada, nem se espera. Onde já se viu um time que não faz gol ter como destaque o centroavante? O Vermelho e Preto se afoga no mundo da fantasia. Para seguidores, admiradores e especialistas no esporte, futebol agora se ganha fazendo o pivô. Ninguém chuta, ninguém tabela, ninguém cria, ninguém cabeceia. Ah, mas o pivô...

Tamanha a surrealidade que o camisa 10 só veste 10 quando é impedido de trajar 35. Ultimamente, deixa mais adversário que companheiro em condição de balançar a rede. É chamado de “ídolo”. Se acerta o passe, a bola cai no Gênio de uma Genialidade Só. Sujeito de coração forte, cabeça diminuta. Que não acerta nada, toma todas as decisões erradas. De tão diferente que pensa, foi o único a vislumbrar seu lampejo de Leonardo da Vinci. Antes e depois, apenas tropeços sobre a bola. “Vive grande fase”.

O momento é tão bom que o professor recém-chegado não cogita armar o XI sem ele. A única coisa que passa mais distante de sua cabeça é botar os dois atletas de maior qualidade técnica para jogar, lado a lado. Contratados a peso de ouro para, agora, disputarem a mesma vaga.

Não tem problema. As redes sociais não param de crescer, o plano de sócio-torcedor é um sucesso. Não viram a final da Copa do Brasil? Apenas sócios no Maracanã. Ex-maior do mundo, estádio que hoje não pulsa. Não por culpa dos torcedores, mas das transformações pelas quais vem passando o esporte. Menos espaço para "neoarquibancadas", cresce o novo conceito de cadeira numerada. Lugares marcados, público seleto, sentado. O esforço é erguer um pedaço de papel por 5 minutos. Dão a isso o nome de mosaico. Cantar, pular, se esgoelar, não vale mais a pena.

Elenco caro, salários estratosféricos, duas partidas por semana. Há de se pagar o futebol dos dias atuais. Sobe o preço dos ingressos, o aficionado se vê forçado a escolher em qual jogo ir. O Maracanã branco, calado, impressiona. Justifica-se. Final de campeonato, oportunidade para o clube arrecadar mais, somar boas cifras às imensas cotas da televisão. Televisão acionada nas salas e bares, assistida por milhões que não têm condição de acompanhar a paixão de perto. Garantem as cotas sem qualquer garantia.

O que transforma rubro-negro em vermelho e preto não é o Maracanã de 7 de setembro, e sim a Ilha do Urubu das semanas anteriores. 8.428 pagantes contra o Atlético-PR; 5.969 diante do Atlético-GO; 5.170 frente o Palestino. Isso porque é a maior torcida do mundo. Se o futebol de hoje blinda o pobre de frequentar o estádio – de se fazer presente em decisões –, que dê a ele a chance de acompanhar seu clube em algum jogo menor, partidas em que o próprio sócio-torcedor abre mão de ir.

No Vermelho e Preto não há tal preocupação, privilegia-se apenas o dinheiro. Quanto mais entrar, melhor. Se vier da renda, ótimo; se não, as mensalidades compensam. Em casa vazia, sobra mais feijão. Quem não tem cacife que se vire, que se afunde em dívidas para pagar o dízimo. Mais o valor da entrada. Só não vai fazer empréstimo na patrocinadora do rival paulista.

Verdade que o clube hoje é bem administrado, tem as contas em dia, aumenta o faturamento. Pena que está rendido ao mundo da fantasia. Os defensores do filósofo Bandeira argumentam: “Antes era todo ano brigando para não cair”. A situação em gestões anteriores era inegavelmente pior, mas atentem-se: brigando. O Flamengo briga, tem de brigar, sempre. O Vermelho e Preto não briga.

Vive acreditando que do plantio de dinheiro brotará a colheita de taças. Por mais que não haja cobrança, por mais que não haja vontade, por mais que não haja alma. O reflexo se vê em campo, com um time passivo, que não se esforça, rodando a bola de um lado para o outro sem agredir, sem finalizar. Crente de que o gol é mera questão de tempo; e só.

Nas arquibancadas, cadeiras, à frente dos televisores; uma torcida que ama, acredita no Flamengo. Tamanha a fé que se faz confundir rubro-negro com vermelho e preto. Ilude-se parcial, mas não completamente. Sabe que isso aí que temos hoje dificilmente conquistará a Copa Sul-Americana. Por isso a gana, a fome, o desespero por uma vitória no próximo dia 27. Em uma partida, em alguns segundos, até Orlando Berrío é capaz de aplicar o “drible que Pelé não deu”. Tiítulo, no Mineirão, nos trará deleite. Não a salvação.

Copa do Brasil já ganhamos, já perdemos. O Flamengo não podemos perder.

Derrotas continuam sendo aceitas e, cada vez mais, o grupo de atletas que veste vermelho e preto não se vê na obrigação de se entregar.

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