Morte de torcedor 'raiz' coloca luz no debate sobre a exclusão social

Seu Expedito era um torcedor ilustre do Flamengo - Foto: Simon Lédo‏
ESPN: Por Mauro Cezar Pereira

Houve um tempo em que ir ao futebol era algo acessível para todos. O preço da arquibancada regulava com o do cinema, mais caro em jogos importantes, decisivos, como aos sábados e domingos nas salas de exibição. Mas baratinho em pelejas menores, como ocorre numa terça-feira à tarde para quem procura um filme bom ou que apenas divirta. Aos poucos, as cifras dispararam, e com as tais “arenas”, transformaram o velho esporte bretão em programa da classe média, de quem vira sócio, tem dinheiro para pagar uma mensalidade e o bilhete caro. Agora, ao invés de puxar aquela nota amassada do bolso, o torcedor faz biometria. Elitizaram a paixão popular, tiraram o pobre dos estádios, sem dó, nem piedade.

Eliminaram do Maracanã e do Mineirão, entre outras canchas, o lugar mais barato, a geral. Interessante é que a maioria dos que defendiam o fim daquele setor popular, democrático e repleto de personagens folclóricos jamais pisou ali. Nunca ficaram voluntariamente de pé os 90 minutos sob tempestade, segurando um guarda-chuva, apenas para ver o time em campo. Mas esses acadêmicos se acham capazes de falar a respeito, de dizer o que é bom ou não é. Sim, são aqueles que babaram pelas tais arenas antes da Copa, que afirmavam tolices como “o torcedor agora terá conforto”, quando na realidade ele foi é arrancado do campo de futebol. Afastado pelo bolso, impedido de chegar perto de seu time de coração.

Ante o saudosismo causado pela inexistência da geral, surgem argumentos como o “culto ao desconforto”, que os antigeral gostam de usar, como se nós, defensores do setor popular, associássemos a presença do pobre no estádio à localização. Mas o geraldino não reclamava. Quando vimos cartazes na geral pedido “mais conforto” ou algo assim? Ora, eles apenas queriam estar no estádio, perto dos ídolos, e a visão não tão boa do campo (aliás parecida com a de quem senta nas primeiras cadeiras de uma arena) era compensada pela emoção de estar ali, de participar. Se uns e outros não gostavam, por que impedir quem achava ótimo, ou preferia a geral do que o nada? Nem tal opção essa gente tem mais.

Na geral havia, sim, sacos de mijo que explodiam nas costas de seus frequentadores. E quem jogava era o cara da arquibancada, que tinha mais dinheiro para o ingresso e menos educação e respeito pelo geraldino, a vítima, não o culpado. Alguns desses arquibaldos ainda estão lá em cima. Por que hoje em dia não jogam urina no torcedor das cadeiras inferiores? Talvez por não serem pobretões como boa parte dos frequentadores da velha geral. Eliminaram o setor popular por razões diversas, entre elas o fato de o torcedor com mais dinheiro humilhar o mais pobre, que foi afastado para que esse porco, um verme com mais reais na carteira pudesse seguir frequentando o estádio.

Líder do Brasileiro, o Corinthians tem no certame 80% de ocupação de sua Arena, ou quase 10 mil lugares vazios por jogo, em média. No Palmeiras sobram, por peleja, mais de 11 mil, com taxa de 74%. E no pequeno estádio onde atua o Flamengo ficam vazios, por cotejo, em torno de 8 mil, com os vergonhosos 60% de ocupação. São os três clubes que cobram os ingressos mais caros no país: R$ 60 no Allianz Parque, R$ 58 na Ilha do Urubu e R$ 55 em Itaquera, o preço médio. E mesmo sobrando milhares de lugares na maioria das partidas, ninguém pensa, tenta, estuda uma forma para reduzir os cifrões e, mesmo eventualmente, permitir a presença de alguns dos milhões de excluídos.

Os rubro-negros perderam dinheiro, pagaram para jogar em seus últimos compromissos na Ilha do Governador, contra Atlético Goianiense (-R$ 100.039,34) e Atlético Paranaense (-R$ 20.972,20). Públicos diminutos devido aos ingressos caríssimos (a partir de R$ 120 para o não associado sem direito à meia entrada), borderô no vermelho e a maioria da torcida afastada pelo bolso. Mas não se cogita cobrar bem pouco, ou nada, do sócio torcedor para ver essas partidas, e valores acessíveis dos demais. Preferem prejuízo e cadeiras vazias. Não seria melhor zerar a conta ou então ter o mesmo resultado financeiro com casa cheia, inclusive atraindo novos associados para o futuro? Não para os cartolas.

Em Flamengo 2 x 0 Santos, pela Copa do Brasil, a presença de um homem humilde, isolado num canto do estádio, chamou a atenção. Por mais bizarro que possa parecer, aquele que era o perfil típico do rubro-negro, do geraldino, e causou estranheza por estar ali, num espaço agora ocupado pelos “classe média” que podem pagar uma taxa todo mês e frequentam os jogos de hoje em dia. Era Seu Expedito, cuja foto viralizou na internet. Virou símbolo da exclusão na arquibancada. O site Coluna do Flamengo o homenageou e lhe presenteou com uma camisa personalizada. Ele morreu nesta sexta-feira. O clube respeitará um minuto de silêncio antes do jogo deste domingo, contra o Sport.

Como alguém que se diz Flamengo pode achar normal jogos do time mais querido do Brasil sem gente como Seu Expedito? Ainda mais em meio a tantas cadeiras vazias em tantos jogos sem casa cheia. Sua aparição (só estava no estádio por causa da gratuidade), com grande repercussão, deu vida ao debate sobre a exclusão social nos estádios brasileiros. Que não é exclusividade do Flamengo, mas choca ainda mais por ser o clube de maior torcida do país, por ser a camisa que mexe com o coração de mais gente pobre e sofrida do que qualquer outra. Esse povo é a essência do clube que conhecemos e milhões aprenderam a amar. O debate sobre o tema é o legado de Seu Expedito, um rubro-negro ‘raiz’.

E no pequeno estádio onde atua o Flamengo ficam vazios, por cotejo, em torno de 8 mil, com os vergonhosos 60% de ocupação.

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