A insistência do Flamengo em retalhar não um time, mas uma ideia

Gabriel em Flamengo x Avaí - Foto: Gilvan de Souza
CHUTE CRUZADO: Pedro Henrique Torre

A ideia de um Flamengo hegemônico, dominante no cenário do futebol sul-americano passa pela reestruturação financeira iniciada no fim de 2012, mas, também, pela compreensão da necessidade de incorporar uma mentalidade vencedora. Ser sempre forte em qualquer disputa. Era fácil entender em idos de 2013 a opção do clube por escalar um time reserva, bem fraco, às vésperas de uma final de Copa do Brasil. Em clara limitação financeira, o elenco não oferecia variedade técnica e o insucesso seria o mais provável. A sensatez indicava que um não aconteceria sem abdicar de outro. Não é o panorama de 2017.

Quatro anos depois o Flamengo tem por méritos próprios estrutura e elenco fortes. Há como escalar equipes competitivas em todas as frentes. Mas a opção de retalhar por completo o time, com velhas insistências, resultou em mais dois pontos perdidos no empate em 1 a 1 com o Avaí, pelo Campeonato Brasileiro. Um campeonato com o qual não se deve brincar.

Neste domingo, o Flamengo poderá ser ultrapassado por Botafogo e seu adversário na final da Copa do Brasil, o Cruzeiro. Acordaria na segunda-feira em sétimo lugar, fora do G-6 e com a vaga na Libertadores sob risco. A aposta é alta na decisão de quarta. Quase uma fixação na salvação da lavoura de 2017. Talvez daí resulte o quase descaso, ainda que inconscientemente, com o Brasileiro. Reinaldo Rueda mais uma vez optou por fazer observações em meio ao maior campeonato do país, mesmo sem segurança alguma de título neste ano ou classificação para a Libertadores na próxima temporada. Já não tinha obtido êxito diante do Botafogo. Com mais mudanças, um time ainda mais enfraquecido, obviamente encontrou dificuldades outra vez.

Ainda que o elenco seja forte para padrões brasileiros, alinhar 11 jogadores que pouco disputaram partidas juntos já torna difícil o combate com outras equipes mais entrosadas, embora tecnicamente abaixo. O problema é que o Flamengo de 2017 insiste em opções padrão de 2013. Rafael Vaz, Márcio Araújo e Gabriel pertenciam a outro momento do clube. Mas aparecem em 2017, seguidamente, acumulando erros técnicos que comprometem objetivos. Foi o que aconteceu mais uma vez na noite deste sábado, na Ilha do Urubu.

Geuvânio e Vinicius Junior, novidades que indicam o Flamengo olhando para seu futuro, acabam relegados ao banco de reservas das velhas peças de segurança. No 4-2-3-1, o Flamengo pouco entrosado entrou em campo com Márcio Araújo e Mancuello como volantes, Matheus Sávio, na esquerda, e Gabriel, na direita, como pontas, com Everton Ribeiro centralizado. Faltavam técnica e, principalmente, conjunto. Um time que não sabia muito por onde caminhar, onde trocar posição. Como chegar ao gol adversário. A solução foi optar pelo alto. Foram XX cruzamentos apenas na primeira etapa.

O meio era falho no combate. Márcio Araújo não tem qualidade para fazer a saída de bola. Mancuello, fora de forma, não conseguia voltar para efetivar a marcação já na metade da primeira etapa. Foi um festival de bola alta, com vários lançamentos e zero criatividade. Everton Ribeiro, centralizado, tentava resolver o problema quase de maneira solitária. Voltava, adiantava e caía para a direita. Abria um espaço que era ocupado por Gabriel. Em sua quinta temporada no Flamengo, o camisa 17 pouco mudou para continuar como opção para o time titular. Erra dribles, tomadas de decisões na proximidade do gol. Tecnicamente, fica aquém.

No espaço atrás dos volantes, o Avaí trabalhava com sua trinca próxima de Joel. Embora deixasse a bola com Flamengo, tendo menos de 40% de posse, o time catarinense espetava contra-ataques interessantes. Juan e Junior Dutra pelos lados arrancavam em busca de Pedro Castro. Em um desses arranques, com espaço, Márcio Araújo errou o bote e o meia do Avaí saiu na cara de Diego Alves, que fez boa defesa. Mas durou pouco. Em seeguida, o próprio Pedro Castro cobrou falta pela esquerda, a bola atravessou toda a defesa e o goleiro Diego Alves. 1 a 0, no cantinho da rede.

A rigor, o Flamengo reagiu com cruzamentos da esquerda para Lucas Paquetá, que desperdiçou oportunidades. Mas era um primeiro tempo muito ruim. Abaixo das mínimas expectativas de um time que poderia alcançar a quarta posição com a vitória em casa. Por vezes, uma atuação que flertou com o desinteresse. As vaias no intervalo não foram ao acaso. A insatisfação tinha motivo.

No segundo tempo, Rueda tentou diminuir suas observações. Mas de forma ainda pragmática. A troca de Matheus Sávio por Geuvânio melhorou um pouco. Gabriel caiu para a esquerda, com o camisa 23 assumindo a direita para dialogar com Everton Ribeiro. A postura rubro-negra mudou. Mais toque, menos bola alçada. Uma busca insistente por espaço diante de um Avaí que se fechava pelo centro e obrigava o Flamengo a buscar os lados. Em um cruzamento após jogada da dupla, Paquetá escorou bola na trave. Geuvânio, de drible fácil, poderia ser uma solução. Gabriel, definitivamente, não era. É claramente o padrão do elenco de 2013, do qual nem titular era. Limite técnico, algum esforço, mas pouco resultado. Um Flamengo com posse, mas sem, de fato, incomodar o Avaí.

Rueda, então, queria buscar o empate. Talvez apenas observar já não fosse tão bom negócio assim. Uma vitória às vésperas da final deixaria o clima mais leve. A derrota, justamente o contrário. Aumentaria a pressão sobre a conquista na quarta. Tardiamente, o técnico passou a deixar o time mais solto, com melhor qualidade técnica. Sacou Mancuello, totalmente fora de sintonia com a falta de ritmo, recuou Paquetá e colocou Vizeu à frente. Ainda circulava pelos lados. Mas Gabriel, extremamente vaiado, não colaborava. Faltava qualidade pelo setor. Drible, velocidade. Vinicius Junior o substituiu.

Os últimos 15 minutos deixaram ainda mais claro a equivocada opção de Rueda por retalhar um time com pior qualidade técnica, com elementos-chave de um padrão de outro momento do clube. O Flamengo se tornou mais leve, mais ofensivo. Mais perigoso para o rival, que contava com o goleiro Douglas como seu salvador. O gol achado por Rodinei em um belo chute de canhota no ângulo afagou a alma rubro-negra, mas não a acalmou. Na arquibancada, os poucos torcedores mostravam insatisfação com o resultado. E, talvez, com a insistência em mandar a campo um time mais fraco mesmo com maior qualidade disponível. Vizeu,aos 47 minutos, perdeu chance imperdoável para um centroavante e o empate foi sacramentado. Pouco e arriscado.

O Flamengo deixou pelo caminho pontos importantes no Campeonato Brasileiro quase que por opção. Utilizou o torneio a pleno vapor como laboratório. A conquista da Copa do Brasil, na quarta-feira, amenizaria o clima e levaria mais um trofeu à galeria, pavimentando 2018 com uma fase de grupos de Libertadores e, aí sim, dando tempo a Rueda para fazer sua peneira particular. O revés em Belo Horizonte, no entanto, aumentaria o já agitado caldeirão rubro-negro, em ebulição desde a vexaminosa eliminação na maior competição sul-americana. A maior lição, no entanto, talvez não tenha sido entendida pelo Flamengo. O clube de 2017 reúne condições para brigar em todas as frentes. É obrigação, caso queira manter a ideia um dia de ser hegemônico nos campos sul-americanos. Retalhar o time e utilizar o campeonato nacional mais importante do continente uase como uma brincadeira não é o caminho.


O Flamengo se tornou mais leve, mais ofensivo. Mais perigoso para o rival, que contava com o goleiro Douglas como seu salvador.

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