O Flamengo resignado com o fracasso

Éverton Ribeiro comemorando gol pelo Flamengo com Márcio Araújo - Foto: Staff Image
CHUTE CRUZADO: Por Pedro Henrique Torre 

A sensação que transparece é a de que não parece ser tão ruim assim digerir uma derrota construída em minutos. Passar do triunfo ao nocaute diante do adversário que comemora logo ali, adiante, enquanto você permanece cabisbaixo. A vitória do Santos por 3 a 2 no Pacaembu em uma revirada indica um Flamengo que parece ter perdido não só mais um jogo, mas a capacidade de se indignar com o fracasso. Um time-zumbi desde a eliminação vexaminosa na Libertadores, uma estaca no coração que parece sacrificar o andamento da temporada. Quando a derrota se apresenta como iminente, o Flamengo permanece paralisado. E parece entender o revés com resignação. Um destino traçado.

Só isso explicaria o porquê de a equipe rubro-negra apresentar um futebol de boa qualidade como há um bom tempo não se via e de repente se deixar desmanchar mais uma vez em 15 minutos. Sim, na maior parte do tempo o Flamengo atuou bem. Desenvolveu seu jogo, com triangulações pelos lados, apoio de laterais, teve campo para avançar diante de um Santos que não estava ruborizado em esperar o contra-ataque. Organizado, o Flamengo cercava a área rival, mas pecava no de sempre: finalização. Guerrero, antes de sair ainda na primeira etapa lesionado, desperdiçou chance clara em cruzamento de Rodinei. Juan, de cabeça, também. Vizeu, substituto do peruano, caprichosamente mandou bola na trave com o gol aberto.

Um Flamengo melhor muito devido à presença de Willian Arão, novamente em boa partida, infiltrando e dando opções de diálogo com Everton Ribeiro e Rodinei pela direita. O Santos escapava com lançamentos de Lucas Lima principalmente para Bruno Henrique, rápido pelo lado. Causava problemas e resultou num cartão amarelo para Rodinei que seria determinante ao fim. Era um jogo controlado pelo Flamengo, que não parecia ter ânsia de arredondar o trabalho com finalizações eficientes. Assim, o primeiro tempo terminou sem gols.

Na volta para a etapa final, o Santos começou a ganhar a partida quando Levir Culpi entendeu que Yuri, volante com cartão amarelo, poderia ser expulso no combate direto com os meias rubro-negros. Fora advertido em uma caçada a Everton Ribeiro. Logo o sacou, tirou Jean Mota da lateral para o meio, melhorando a saída de jogo, com Zeca entrando na lateral esquerda. Zé Ricardo poderia ter feito o mesmo, ao trocar o amarelado Rodinei por Pará, melhor na marcação para conter as escapadas de Bruno Henrique, a maior arma do Santos. Preferiu não fazer.

Um risco talvez calculado, ao tentar ainda explorar as boas descidas de Rodinei com Arão, aproveitando o improvisado Jean Mota no setor. Mas o panorama tinha modificado. E piorou quando Diego Alves cobrou tiro de meta e uma cabeçada de Lucas Veríssimo no círculo central foi o suficiente para encontrar um buraco na intermediária defensiva rubro-negra. A bola caiu nos pés de Ricardo Oliveira, acompanhado por um desesperado Márcio Araújo, já que Arão, avançado, não o vigiou. O volante rubro-ñegro não impediu a finalização e a bola sobrou limpa para Bruno Henrique, marcado por Rodinei. Amarelado, o lateral evitou qualquer contato com o atacante, que finalizou livre entre as pernas de Diego Alves. 1 a 0.

Mas não, o Flamengo não estava mal no jogo. Pelo contrário. E deu resposta rápida, com um belíssimo chute de Everton Ribeiro no ângulo de Vanderlei. O empate fez justiça ao que era apresentado em campo. Bem postado, o Flamengo continuava a tramar um jogo mais atraente, com bola no chão, troca de passes, infiltração e farta movimentação dos homens de frente. Não tardou, então, a desajustar a defesa santista. Apareceu o espaço, de Arão para Vizeu dentro da área. De Vizeu para o gol. 2 a 1. Parecia difícil imaginar que naquela noite o time rubro-negro mais uma vez arrefeceria como na Vila Belmiro. Mas emocionalmente o Flamengo parece frágil. Não consegue lutar contra seus fantasmas.

Levir Culpi já tinha dado outro fôlego ao meio de campo quando trocou Renato, cansado, por Alison. A expulsão cantada de Rodinei, em entrada em Bruno Henrique ainda no campo de ataque, convidou o Santos a avançar mais. Levir tirou Jean Mota do meio e colocou Kayke para auxiliar Bruno Henrique, Copete, Ricardo Oliveira e Lucas Lima. Passou a pressionar o Flamengo que se mantinha bem postado, com dois blocos de quatro e apenas Vizeu à frente. Mas bastou um passo em falso. Ou melhor, um bote em falso. David Braz para Alisson. Márcio Araújo tentou achá-lo. Não conseguiu. Na virada do volante, um petardo de direita que morreu no fundo da rede de Diego Alves. 2 a 2. A derrota era iminente.

Talvez não em uma situação normal. Mas este Flamengo carrega cicatrizes em 2017 que o tornam frágil em situações de extrema pressão psicológica ao fim dos jogos. O San Lorenzo invade na cabeça. A virada e quase eliminação diante do mesmo Santos uma semana antes ainda estava fresca na memória. Um Flamengo paralisado e resignado parecia dizer para si que a derrota seria questão de tempo. Não tem pernas para reagir. No embalo, o Santos foi para cima. Em que pese o gol anulado de Réver após bola alçada na área, o Flamengo inexistia. O cruzamento de Daniel Guedes para o gol de Ricardo Oliveira, solitário na pequena área aos 43 minutos do segundo tempo, apenas sacramentou o esperado.

Mais um revés vexaminoso do Flamengo na temporada. Um elenco atônito que parece ter perdido a capacidade de se indignar com a derrota construída em minutos diante do terceiro colocado do Campeonato Brasileiro. São 16 pontos de distância para o líder Corinthians antes do fim do primeiro turno. Só uma arrancada de proporções épicas daria o direito de ao menos sonhar com a disputa da taça. Altamente improvável. Não há um vilão apenas. O Flamengo atual, com ótimos valores e derrotado até mesmo quando é melhor na maior parte do tempo é caso para divã. Sim, Zé Ricardo tem sua parcela ao não entender que Rodinei tinha grandes chances de ser expulso. Ao insistir com Márcio Araújo, em novos vacilos em dois lances, também.

A diretoria, inerte após o vexame da Libertadores, contribui para o caos. Em fogo brando, cozinhando o passar da temporada, o Flamengo parece ter comprometido seus dois maiores objetivos em 2017. Mas nada indica que haverá mudanças enquanto o transe permanecer. O Flamengo, hoje, aceita a falta de resultados sem maiores dores. Como apenas parte de um processo. Como uma criança inocente que crê na lenda de que depois da chuva nasce o arco-íris com um pote de ouro ao fim. As nuvens estão pesadas no Ninho do Urubu. O time deve. Veste-se de amarelo com frequência. A diretoria também. Mas e daí?

Como uma criança inocente que crê na lenda de que depois da chuva nasce o arco-íris com um pote de ouro ao fim.

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