É esse o Flamengo que merecemos

Zé Ricardo e Victor Hugo, Preparador de goleiros do Flamengo - Foto: Staff Images
ESPN FC: Por Marcos Almeida

O Flamengo é e sempre será constituído por todos nós. Do mais antigo torcedor ao que acaba de nascer, passando por presidente, treinador, zagueiro central e ponta-direita. O departamento de futebol monta um time, treinado por um técnico, contratado ou mantido pelo presidente que tem a missão de guiar o clube para atender aos anseios da torcida. É uma força vinda de vários lados, com distintas intensidades. Se uma parte falha, cabe às demais se unirem para repará-la. Mas quando quase nada vai bem, é hora de pensar se nós – todos nós – estamos levando o Flamengo ao caminho certo.

Se no Pacaembu a quarta-feira foi de lamento, talvez na Gávea ela tenha sido de comemoração. 2 de julho de 2017 foi o dia em que o Flamengo se tornou o clube brasileiro com mais inscritos no Youtube. Vivemos excelente fase nas redes sociais, aliás. Estamos entre os que mais crescem no Facebook no planeta. Não é possível que o resultado de tamanho sucesso não vá se refletir em campo. Logo mais, o Mengão conquistará o mundo! Logo mais...

Esse Flamengo, de agora, é o time do “logo mais”. Estamos sempre pensando no amanhã, pouco fazendo para garantir o hoje. E quem apenas sonha, sem buscar atingir o sonho, não sai do lugar. Agosto mal chegou, Libertadores e Brasileiro foram por água abaixo, e todo mundo já está projetando o ano que vem. Do mesmo jeito que fizemos em 2014, 2015, 2016.

A eleição, no ano retrasado, traria um supertime em 2016, comandado por um baita treinador. Com Mancuello, ali no meio, ninguém pararia o Flamengo! Caímos para uma equipe de Série C na Copa do Brasil, adentramos o Brasileiro sem defesa. Aí trouxemos a dupla de zaga reserva do time que seria rebaixado, e a quarta opção do que já estava na Série B. Pouco. Foi necessário contratar um craque – Diego –, e o Flamengo decolou. Do banheiro químico à perfumaria, só se sentia o tal "cheirinho de hepta".

Sequer o Mengo ocupou a ponta da tabela, mas não havia problema. Imagina aquele time com os reforços de 2017? Seria campeão de tudo! Réveillon passado e mantivemos, na equipe titular, o zagueiro que não poderia ter saído da segunda divisão. Abrimos mão de goleiros experientes porque defesa, no futebol, é bobagem. Quem precisa de uma boa retaguarda quando Darío Conca, pesando entre 120kg e 413kg, chega para ser o novo cara do time? “Pena que só joga no mata-mata da Libertadores”.

Não teve mata-mata, mas nem tudo estava perdido. O Brasileiro havia apenas começado e o Mengão meteu 3x0 no Atlético-GO logo na segunda rodada! Em 9 partidas, vencemos somente duas, ambas contra eles. Daquele jeito não ia dar, precisávamos de mais um zagueiro, um atacante que ano passado disputou a segunda divisão chinesa, e um novo craque. Vieram Rhodolfo, Geuvânio e Everton Ribeiro. Rhodolfo, aliás, foi apresentado na segunda, jogou na quarta e virou titular. Não aguentou.

A fase, contudo, era boa. Batemos as fortes equipes de Ponte Preta, Chapecoense, Bahia, São Paulo, Vasco e Palestino. Ganhamos, também, de um Santos mequetrefe na Copa do Brasil. Tudo levava a crer que o cheirinho de hepta, em 2017, teria também sabor. Mas aí o Flamengo começou a tropeçar em times fracos. Grêmio, Cruzeiro, Palmeiras, e tomou o troco do Santos, embora sem perder a vaga na semifinal.

As coisas iam mudar, o adversário seguinte era o surpreendente líder e o Flamengo, de uma vez por todas, estaria livre de problemas, carências. #Eutenhogoleiro! E o goleiro jogou duas vezes, tomou 5 gols – um pessimamente anulado. Foi mal em 2 desses 5.

A janela fechou. Agora não dá mais pra apagar derrotas com contratações vindas do exterior. Ainda bem que a sorte está ao nosso lado! Mesmo vencendo apenas 1 dos 10 primeiros colocados, o Flamengo ainda assim é o “melhor do Rio”, com uma rodada de vantagem sobre o Botafogo. “Ih, Libertadores qualquer dia tamo aí!”

Talvez pra fracassar de maneira inédita. 1x1 em Caracas, 2x2 no Rio, e dá pra ser eliminado antes mesmo da fase de grupos! Sem qualquer trauma ou demonização, afinal o importante, agora, é frequentar constantemente a Libertadores. Só adquirindo essa experiência para sair vencedor. Vide o Atlético-MG, que batia ponto no torneio nos anos que antecederam 2013; ou o próprio Flamengo, cuja estreia se deu justamente em 1981.

81 acabou em dezembro. Nos últimos 2 meses do ano, perdemos Cláudio Coutinho, devolvemos os 6x0 no Botafogo, conquistamos o Rio, a América e o mundo. Já 2017 tinha acabado em maio. Agora acabou, de novo, no começo de agosto. 18 rodadas disputadas e não há mais Campeonato Brasileiro para o Flamengo. Cabeça na Copa do Brasil, na Sul-Americana e, se perdermos ambas, o foco se torna o G6. Porque G6 é a cara desse Flamengo. É pensar no amanhã, pra quando o amanhã chegar, poder se pensar no depois de amanhã.

É Zé Ricardo satisfeito com as derrotas para Catolica e Atlético-PR, fora de casa. É Eduardo Bandeira de Mello respaldando um trabalho que põe Márcio Araújo e Rafael Vaz no time titular. É o Flamengo eliminado da Libertadores e nenhum jogador puto, transtornado, inconsolável. É a torcida culpando o azar pela terceira queda consecutiva na fase de grupos.

É o Flamengo da excelente gestão financeira e péssima gestão de futebol. O Flamengo que bomba nas redes sociais, que faz o Brasil conhecer a Carabao sem ter nunca visto uma lata. Que induz o Santos a cobrar R$200,00 ao rubro-negro em jogo com ingresso a R$20,00. Que cobra os mesmos R$200,00 do próprio rubro-negro, na Ilha do Urubu. Que acha que dinheiro, e só isso, vai fazer o Flamengo voltar a ser campeão.

É a falsa cobrança sobre esse Flamengo que tem a “obrigação” de ganhar título grande em 2017. Porque não tem. Porque cada vez que falha, já se começa a pensar na edição seguinte do campeonato. Porque o Corinthians abriu 15 pontos e agora todos passam a projetar o Flamengo do ano que vem. Porque se ganhar meia dúzia de jogos, a galera vai cantar “Ih, Libertadores qualquer dia tamo aí”.

Enquanto fizermos do Flamengo isso, é esse Flamengo que vamos ter. Esse Flamengo que merecemos ter. O Flamengo que tem a bola, controla a partida, e perde. O Flamengo que joga de amarelo, incapaz de vencer qualquer adversário direto na briga por sei lá o quê. O Flamengo que não precisa ganhar hoje porque existe a possibilidade de ganhar amanhã.

Para este Flamengo, o 6° lugar está de ótimo tamanho.

Porque G6 é a cara desse Flamengo. É pensar no amanhã, pra quando o amanhã chegar, poder se pensar no depois de amanhã.

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