Venceu o melhor

Jogadores do Flamengo comemorando vitória sobre o Vasco em São Januário - Foto: Gilvan de Souza
BOTECO DO FLA: Sorin

Não foi um bom primeiro tempo. Um domínio inútil do Flamengo. Pouco ameaçou um Vasco que entrou em campo com a mentalidade pequena de quem vive um dos momentos mais difíceis de sua história. Era se defender do jeito que dava e contar com aquele famoso lugar-comum do “jogar por uma bola”, pra tentar retrancar ainda mais depois e sair com a vitória. Muita falta, muito empurra-empurra, provocações de ambos os lados... E os goleiros das duas equipes só assistindo aquilo tudo e sem muito o que fazer em campo.

No Twitter, durante o intervalo, alguém sabiamente comentou: “Se você acha que seu sábado está difícil, imagina quem tem que selecionar os melhores momentos desse jogo”. Foi brabo mesmo. Aliás... Com o mesmo discernimento e julgamento de valores de uma criança de 5 anos após ganhar um doce ou um brinquedo, vi muita gente falando em “inquestionável”, “atuação de gala”, “todo mundo foi bem”, que certamente estaria com lamúrias e arrastar de correntes apocalípticos se no final das contas a bola acabasse por não balançar as redes. Estamos de olho.

No segundo tempo o Flamengo continuou superior e com um pouco mais de pressão. O Vasco segurou até onde deu. No final das contas, os Deuses do Futebol acabaram permitindo (e a gente sabe que nem sempre é assim) a vitoria da melhor equipe. Éverton “desnecessário” Ribeiro (tá cheio de print lá no Twitter de uns doidos que criticavam a contratação do craque) fez algumas excelentes jogadas e, em uma delas, deixou um bacalhau lá sem pai e nem mãe, com a bunda no chão, e cruzou com uma perfeição linda na cabeça do xará. O outro Éverton fez que nem o Mauro Beting fala no PES (momento nerd) e mandou uma “cabeçada de manual de procedimento”, balançando as redes que haviam escapado poucos minutos antes em finalização errada do Diego.

Como a casa caiu... O Vasco teve que rever seus conceitos e tentar alguma coisa lá na frente. O melhor acontecimento de ontem, após a conquista dos três pontos, foi uma excelente defesa do Thiago após boa finalização do Luís Fabiano. Ele precisa ganhar confiança... E nós também. Mas já era tarde pro Vasco. Não é exclusividade cruzmaltina, e a gente sabe muito bem disso, mas o futebol tem 90 minutos e geralmente não é uma boa ideia começar a jogar só depois de levar o primeiro gol.

Após 44 anos o Flamengo voltou a vencer o Vasco em sua casa. Temos mais dinheiro, melhores jogadores, mais estrutura, mais torcida, mais responsabilidade administrativa... E em breve acabaremos tendo também estádio próprio, tábua única ao qual se agarram alguns desesperados do lado de lá. Superioridade pouca em todos esses elementos nem sempre traz a vitória quando a bola rola. Mas é fato que quando existe muita superioridade a tendência é que essas coisas acabem, na maioria das vezes, refletindo em campo.

Todo o ocorrido assim que o juiz decretou o final do jogo me fez lembrar uma situação que me impressionou em tempos idos. Na primeira vez que o Vasco marcou um gol na gente após a conturbada transferência do Bebeto pro lado de lá, houve uma reação instantânea na arquibancada. Um segundo após a rede balançar, a multidão (sim, sempre era com multidão antigamente) do nosso lado se retorceu em uma confusão generalizada. O golpe parecia (e eu sei que é só uma visão romântica) ter atingido de alguma forma não um ou outro brigão, mas a torcida como um todo, fazendo a turba se retorcer como um mar revolto espalhando o caos. Ontem eu me lembrei disso na hora que as Cenas Lamentáveis começaram. Parecia que a torcida do Vasco acusava o golpe ao reconhecer que daqui pra frente a história sempre vai ser diferente. Que não é mais uma questão de discussão de bar e divergência de opiniões. O Flamengo é superior e, ao continuar do jeito que estão as coisas lá e cá, só tende a aumentar a hegemonia a cada ano.

Eu e minha boca. Proferi ontem tanto aqui quanto na Filial Pobre e Sem Glamour do Boteco no YouTube que dificilmente o Flamengo conseguirá marcar o returno contra o Vasco na Ilha do Urubu. E isso começou ontem. O GEPE, o povo de terno e gravata, a imprensa, o seu João da Quitanda, todo mundo vai voltar a falar em prevenção e em Jogo de Torcida Única,  ignorando que toda a confusão começou e terminou lá entre eles , sem participação nossa. Ainda assim, seja lá com que tipo de proporção maluca de torcida na arquibancada, todos vão achar uma temeridade marcar um Clássico desse porte lá na nossa casa provisória. O caminho natural, mesmo para o jogo de ontem, seria Maracanã e com 50/50. Porém... Porém... Infelizmente é o momento de ser duro com essa questão. O governo, os atuais e possíveis futuros (não) administradores do outrora Maior do Mundo têm que saber que o Flamengo não conta com aquilo lá se a ideia é extorquir de forma injusta quem só tem investido para melhorar as coisas.

De qualquer forma, seja lá onde for, a tendência é mais uma vitória do Flamengo. Cada um com seus problemas. O Vasco (se tudo for julgado corretamente) acaba de perder seu principal trunfo para a campanha mediana que precisa para evitar mais um rebaixamento. A gente brincou por muito tempo que o lado de lá só podia ficar ladainhando “eu tenho estádio, eu tenho estádio, eu tenho estádio...”, por conta da falta de argumentos. Por algum tempo nem isso vai ter.

Foi. Agora é olhar para o Grêmio na próxima quinta e... Vai rolar um Palmeiras x Corinthians. Quem sabe o Alviverde Imponente não quebra esse galho?

De qualquer forma, seja lá onde for, a tendência é mais uma vitória do Flamengo.

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