Perseguir o líder é pensar jogo a jogo, e não técnico a técnico

Zé Ricardo, técnico do Flamengo - Foto: Gilvan de Souza
O GLOBO: por Márvio dos Anjos

Há quem me acuse de ter uma condenável simpatia pelo Corinthians de Fábio Carille, esse relógio suíço extremamente adiantado em relação a Grêmio, Santos e Flamengo. Com o empate do Grêmio no Morumbi, a vantagem corintiana sobre o segundo lugar subiu de seis para oito pontos, o que não é exatamente uma novidade no Brasileiro: já o vimos mais longe.

E isto fala um pouco do imenso peso psicológico que o Corinthians joga sobre os seus rivais. Quando empatou seguidamente com Atlético-PR (2 a 2) e Avaí (0 a 0), alguns pensaram que o Brasileiro voltaria a ter uma disputa franca pelo título. Bastou uma rodada em que o Corinthians voltasse a ganhar (do Flu, no Rio, por 1 a 0) que o Grêmio, marcado para atuar no dia seguinte e premido pela necessidade do resultado, não continuou sua sequência de vitórias e empatou com o São Paulo em 1 a 1.

Imagine-se jogador do Grêmio prestes a entrar em campo na noite de segunda-feira, no Morumbi. Seu time precisa vencer, erros podem ser fatais e, mesmo que vença, não há uma recompensa imediata: encurtar a vantagem será um trabalho para a próxima rodada. "Mas qual é a próxima rodada?", você pergunta a um colega. Corinthians x Fla (em quarto) e Grêmio x Santos (em terceiro). Nossa, o Santos? Melhor evitar um cartão amarelo ou uma expulsão, você pensa, porque o Santos tem crescido na disputa e deve vir forte. Afinal, você se esforça para crer, o Flamengo pode ter alguma chance de vencer o líder.

Fica exemplificada aí a diferença entre pensar jogo a jogo, o mantra de Carille, e pensar em chances de campeonato, que é o que move Grêmio, Santos e ainda o Flamengo. Os corintianos se dedicam à partida que têm à frente, enquanto os rivais lidam com a obrigação de não falhar, com ansiedades e com projeções. Se não se comprometerem logo com a estratégia mental de vencer jogo a jogo e viver no presente, serão devorados pela vantagem corintiana, que se abre e fecha como um tubarão de Spielberg.

Sem essa fortaleza psicológica, perseguir o Corinthians será sempre uma tarefa extenuante, principalmente quando se joga depois dele. Relembremo-nos: há três rodadas, o Corinthians jogou sozinho no sábado, empatando à noite com o Atlético-PR. No dia seguinte, o Grêmio entrou motivado contra a Ponte, tomou o gol no início, mas virou para 3 a 1.

Na rodada seguinte, uma quarta, o Grêmio visitou o Vitória às 19h30, antes do Corinthians, que enfrentava o Avaí na Ressacada às 21h - um peso a menos para o time de Renato Portaluppi. Os gaúchos só precisariam pensar no líder depois, secando-o, e assim construíram uma vitória fácil no Barradão, por 3 a 1. Teria o Corinthians, incomodado com seu próprio empate em Curitiba e com a vitória do vice-líder, jogado sob dupla pressão contra o modesto Avaí? Difícil dizer, mas o empate em 0 a 0 faz pensar nisso.

E aí chegamos à situação da rodada passada, algo que vai se repetir no próximo domingo: Corinthians e Flamengo se enfrentam às 16h do domingo, e esse resultado estará ecoando no vestiário do Grêmio e moendo os ânimos dos mais ansiosos, antes do embate com o Santos, às 19h.

Isso acontecerá até o fim do turno, porque:

- na 18a. rodada, na quarta, o Atlético-MG x Corinthians começa às 21h, enquanto Atlético-GO x Grêmio larga no intervalo, às 21h45;

- na 19a rodada, no sábado, o Corinthians recebe o Sport, enquanto o Grêmio enfrenta o Galo no domingo.

DEMISSÃO É SOLUÇÃO?

A situação exposta acima torna-se ainda mais esquizofrênica quando se fala de Flamengo e sua torcida que discute a ejeção de Zé Ricardo a cada rodada. No sábado, na Ilha, o time venceu sem brios o Coritiba, e enorme parcela da torcida pedia a cabeça do técnico em nome das chances de título.

O raciocínio é manco, primeiro porque cogita um hipotético messias que o mercado não tem. Os que falam no colombiano Reinaldo Rueda se esquecem de que o técnico deixou o Nacional de Medellín neste ano para cuidar de dores na coluna, que tornavam suas viagens uma agonia. Neste segundo semestre, já anunciou que fará um estágio no Hoffenheim, da Alemanha, antes de assumir qualquer clube. Não há qualquer nome que encha os olhos: os melhores estão empregados, a opção por Roger Machado soa como tiro no escuro e muitos desempregados de agora, como Oswaldo de Oliveira, já foram demitidos pela atual gestão.

Segundo, porque trocar técnico seria um "projeto de título" que, dadas as probabilidades atuais, tem tudo para ser admitido como fracasso ao fim do campeonato. Não é realista, quando se está a 12 pontos de um time invicto, e o mais provável é que o hipotético messias seja sacado em dezembro.

Realista é pensar que, mesmo com seus muitos defeitos, Zé Ricardo ainda não deixou o G4 desde que entrou nele. Por seu volume de investimentos, o Flamengo precisa estar na Libertadores no ano que vem. Se, ao fim da temporada, o conjunto for insatisfatório, sem salto de desempenho nem títulos, aí cabe chegar a um nome para 2018. Trocar agora será ansiedade ao cubo, e um risco que pode inflamar feito gasolina.

O Santos tem crescido na disputa e deve vir forte. Afinal, você se esforça para crer, o Flamengo pode ter alguma chance de vencer o líder.

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