Como confiar nos homens de confiança de Zé Ricardo?

Rafael Vaz, do Flamengo - Foto: Gazeta Press
ESPN FC: Por João Luis Jr.

Zé Ricardo é um técnico com várias qualidades. Estudioso, tranquilo, dedicado, construiu sua história no clube vindo das categorias de base, o que já indica um conhecimento prático dos mecanismos do Flamengo e, quando teve a oportunidade de subir dos juniores para a equipe principal, o fez em alto nível, dando padrão tático e volume de jogo para uma equipe que vinha praticamente desenganada pelos médicos na época de Muricy Ramalho.

Mas ao mesmo tempo Zé Ricardo é um técnico com vários defeitos. E um dos seus principais parece ser a total incapacidade de praticar aquilo que os jovens chamariam de “desapego”.

Isso porque Zé, tal qual aquela sua amiga que não consegue terminar com o namorado horrível ou aquele seu primo cheio de potencial que anda só com gente que coloca ele pra baixo, vem cada vez mais se mostrando incapaz de manter fora do time jogadores que não só colocam seu emprego em risco como prejudicam as ambições da equipe e até mesmo a saúde psicológica dos torcedores, todos presos, em diferentes níveis, numa espécie de Síndrome de Estocolmo multinível, um esquema de pirâmide do terror, encabeçado pelo treinador rubro-negro.

Os exemplos são vários e contra o Santos o mais claro foi o de Rafael Vaz. Zagueiro limitado em termos de velocidade, técnica e compreensão tática porém sem limites quando se trata de presunção, vontade de bater uma faltinha e ausência de senso de oportunidade, Vaz falhou sistematicamente desde a sua chegada ao Flamengo, na maioria das vezes não devido a dificuldade do lance, à qualidade do adversário, mas sim por conta de sua própria vontade de complicar jogadas simples, sair jogando bonito quando era hora de dar chutão, esquecer totalmente a necessidade do time de vencer a partida para priorizar sua ambição pessoal de marcar pontinhos no FIFA Street que ele deve imaginar que é a vida.

Mas ainda assim, mesmo com erros seguidos e atuações abaixo da média, Vaz segue tendo chances com Zé Ricardo. Da mesma maneira que Muralha, goleiro incapaz de pegar pênaltis e que havia falhado tantas vezes que saiu do time, mas retornou para falhar novamente em uma partida que poderia ser decidida nos pênaltis. Da mesma maneira que Gabriel, jogador que com certa dificuldade serviria para compor elenco, foi acionado por Zé durante momentos decisivos de uma partida eliminatória. Da mesma maneira que Márcio Araújo, volante também extremamente limitado e que falhou várias vezes durante a temporada, segue não apenas no Flamengo como titular, com direito a camisa comemorativa pelos seus 200 jogos.

Não que o Flamengo venha fazendo jogos espetaculares, porque não vem, mas ontem, contra o Santos, tivemos a prova mais clara de que, por mais que tenhamos na equipe jogadores de muito talento em várias posições, a simples presença de um desses atletas abaixo do nível exigido para o clube é o bastante para transformar o que poderia ser uma classificação relativamente tranquila numa noite de completa tensão, transformar vitórias em empates, empates em derrotas, transformar a alegria de uma classificação em uma sensação de vago terror em relação ao futuro, como se o Flamengo tivesse se classificado mas parte da nossa alegria de viver tivesse caído nas quartas de final dessa Copa do Brasil.

“Ah, mas o Zé Ricardo não tinha opções”. Na maior parte dos casos tem sim. Thiago, ainda que atuando com um nível de nervosismo estilo “toda bola é a garota mais bonita da sala e toda defesa sou eu chamando ela pra sair”, ainda vinha falhando menos que Muralha. Juan, mesmo se recuperando, mesmo fora de forma, ainda erra menos que Vaz, nem que seja apenas por jogar com mais simplicidade.

Escalar Gabriel quando você tem no banco opções que vão desde Vinícius Jr até Paquetá, passando pelo roupeiro, uma bolsa com meiões sujos e vários squeezes de isotônico beira a insanidade. E no caso de Márcio Araújo se o Flamengo, um dos clubes mais financeiramente saudáveis do Brasil, não tem capacidade de achar um volante, seja na base ou no mercado, melhor que o Marcinho, é caso sim pra demitir todo departamento de futebol e fazer um sorteio entre os sócios-torcedores pra ver quem fica no lugar.

Então por favor, Zé, é hora de superar esses jogadores. Lembrar que existem outros atletas no banco, outros atletas na base, outros atletas no mercado. Existem outros zagueiros além de Rafael Vaz, outros volantes além de Márcio Araújo, outros atacantes além do Gabriel. O que não existe, a essa altura, é alguma justificativa possível para que você siga insistindo em dar chances para jogadores que já tiveram todas as chances do mundo e continuaram falhando mesmo assim.

Quer dizer, existe sim uma justificativa possível. E Zé, se o Rafael Vaz estiver fazendo a sua família de refém, durante a próxima coletiva apenas pisque duas vezes, diga a palavra “corrimão” e nós vamos mandar a polícia pra te ajudar. Nós queremos apenas o seu bem e o do Flamengo.


Vaz falhou sistematicamente desde a sua chegada ao Flamengo, na maioria das vezes não devido a dificuldade do lance, à qualidade do adversário.

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