Diego x Scarpa: meias fazem primeiro Fla-Flu neste ano.

Foto: Divulgação
O GLOBO: Pela 1ª vez em 2017, Gustavo Scarpa e Diego vão estar frente a frente — e será o quinto Fla-Flu deste ano. Uma lesão tirou o meia tricolor dos confrontos. Ao seu estilo, são essenciais na conquista da vitória esta tarde.

DIEGO: O LÍDER DE UMA NOVA RECONSTRUÇÃO

Sentado no sofá da sala de casa, enquanto fazia tratamento no joelho direito, Diego levou um choque. Não era o aparelho de fisioterapia usado para acelerar a recuperação da lesão. Era o Flamengo eliminado da primeira fase da Libertadores sem ele em campo. Alvo de alto investimento do clube, Diego devolveu, desde o ano passado, tudo o que o clube podia esperar dele: rendia em campo e matava no peito a tarefa de se posicionar como liderança.

Em especial nas horas difíceis, era ele quem se apresentava como um relações públicas do time. Articulado, seguro com o discurso, poucas vezes titubeia com as palavras, que pronuncia enquanto mexe no cabelo e na barba. Ainda que, por vezes, pareça um tanto ensaiado. Ocorre que, no jogo mais importante do ano até aqui, Diego se viu impotente.

O meia já ficara fora da final carioca contra o Fluminense, adversário de hoje, e de uma convocação para a seleção brasileira. Para ele e para o Flamengo, o ano passou a ser de reconstrução.

— Tudo mudou em um minuto — resume.

LÍDER MESMO APÓS LESÃO

Sua torção de joelho contra o Atlético-PR o fez temer por algo mais grave. Difícil era prever o que aconteceria com o time, que perdeu o encanto. Era, outra vez, momento para Diego entrar em ação. Se ainda não podia ajudar em campo, cumpriu seu papel de líder. No dia seguinte ao desastre, o meia se reuniu com todo o elenco e ficou combinado que a reação seria imediata.

— A sensação foi de impotência. Estava assistindo com um amigo em casa, fazendo tratamento, e tomei um choque. Reagir a essa decepção era muito importante. Acho que fizemos isso bem. Falei o que eu sentia, o que via de um ângulo diferente. Trocamos ideias e chegamos a um acordo para a reação acontecer — conta Diego, que só voltou no jogo contra o Botafogo.

Mesmo fora de combate, Diego esteve presente no vestiário em jogos no Rio e concentrou com o time. E acompanhou rápidas transformações no time. Viu Vinícius Júnior virar solução e ser vendido ao Real Madrid; viu também Conca faltar a um treino e exigir jogar; viu Éverton Ribeiro ser contratado; e viu Zé Ricardo ser pressionado, enquanto torcedores cercavam carros de jogadores no Centro de Treinamento:

— Nossa confiança no Zé é muito grande. Enxergamos nele uma referência e um líder. Sinto essa proteção da diretoria, que tem um projeto e sabe que etapas devem ser respeitadas. Caso contrário, os profissionais se tornam descartáveis, acho isso desleal.

No ano passado, Diego viu o Flamengo não conseguir acompanhar o ritmo do Palmeiras no Brasileiro. Agora, é o Corinthians que lidera.

— Temos que ligar o alerta. Não podemos deixar para depois. Não tem nada decidido.

SELEÇÃO COMO META

Para reagir, o Flamengo encorpou o elenco com Éverton Ribeiro, e Conca já estreou. Diego sabe que o trio junto em campo parece improvável.

— Aí vai ser um problema saudável para o Zé. Nós, jogadores, queremos jogar, vamos ver como vai ser.

Após ser cortado da última convocação da seleção, Diego alimenta esperanças para a Copa de 2018.

— Falei com o Tite logo que me machuquei. Foi uma decepção momentânea. Não tem um dia sequer que não pense na seleção — diz o meia de 32 anos.

SCARPA: A OBSTINADA BUSCA DE UM 'INCONFORMADO'

O cronômetro registrava 18 minutos do segundo tempo. O placar apontava vitória parcial do Fluminense sobre o Vasco por 2 a 0. Em campo, Orejuela via, da intermediária, Henrique Dourado em ótimas condições. O atacante avançou até a entrada da área e entregou a bola para Gustavo Scarpa, que limpou a marcação e ficou cara a cara com Martín Silva, vendido. Era só chutar. E foi o que ele fez. Mas o goleiro defendeu com o pé.

— Foi algo que ficou na minha mente durante toda a semana. Fiquei feliz pela vitória, mas aquilo foi algo que me deixou muito mal — admite.

Soberano no clássico, o Fluminense venceu por 3 a 0 seu primeiro jogo na temporada de 2017. Mas o perfeccionismo não deixou que Scarpa apenas desfrutasse daquele início avassalador.

— Ele quer ver o time jogando, fluindo. No treino não é assim. Mas no jogo ele é um inconformado. E como isso é bom — descreve o técnico Abel Braga, que só trabalha com o meia há seis meses.

Pessoas próximas ao jogador já o aconselharam a se cobrar menos. Mas, em sua cabeça, é assim que se obriga a evoluir e, por consequência, a atender às expectativas. E elas são cada vez maiores.

LONGE DE POLÊMICAS

Há um ano, desde que Fred trocou o Fluminense pelo Atlético-MG, Scarpa passou a carregar o peso de ser o principal jogador do time. Uma responsabilidade que sentiu assim que as cobranças então feitas ao antigo camisa 9 passaram a recair sobre si.

— A maior cobrança é minha. De querer fazer gol, dar assistência, não errar passe, acertar lançamento. Tenho que fazer isso em todos os jogos — conta.

Nas preleções de Abel, não se restringe a entender o que se espera dele em campo. Quer compreender o funcionamento do time. Precisa ter sempre uma solução a oferecer para os imprevistos que ocorrem em campo.

— Os olhos dele chegam a crescer na hora que eu passo o detalhe, a observação — relembra Abel.

O zelo levado ao extremo não se resume ao futebol. Scarpa não é de protagonizar polêmicas. O estilo bom moço não é apenas uma questão de índole. Por conta de suas convicções religiosas (é evangélico), toma todos os cuidados para passar boa imagem.

— É o que mais prezo na minha vida — conta.

PERFECCIONISTA SEM VAIDADE

Talvez seja o perfeccionismo que o fez se interessar pela biografia de Stevie Jobs, sua atual leitura de cabeceira. Não só a contribuição deixada pelo fundador da Apple, mas também sua história pessoal têm roubado as atenções do jogador.

Por trás de toda esta cobrança, no entanto, não está a vaidade de querer ser o melhor em tudo. Mas uma responsabilidade muito maior do que a de guiar um time de futebol: vem dele o sustento de sua família. Aos 23 anos, Scarpa sabe que sua realidade já é a de um adulto.

— Tem a dependência da família na questão financeira, o fato de querer dar uma estabilidade maior a eles... Já me sentia adulto bem antes de chegar no Fluminense — afirma o camisa 10.

Era o Flamengo eliminado da primeira fase da Libertadores sem ele em campo.

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