Flamengo tem de querer ganhar tudo de novo!

Bandeiras e sinalziadores na torcida do Flamengo - Foto: Getty Images
ESPN FC: Por Marcos Almeida

Hoje o texto é extremamente pessoal. Imagino que muitos torcedores, ao lerem o título, já devem ter ficado enfurecidos comigo. Creio que o grande problema do Flamengo é justamente esse. O rubro-negro sempre tem um “A” a dizer, sempre tem um contra-argumento.

Pela sétima vez seguida, o Flamengo foi eliminado de forma vexatória da Libertadores. Pela sexta, o papo é o mesmo: “aprender com os erros”. Só aprenderemos com nossos erros e fracassos o dia em que assumirmos que eles existem.

Não respondamos aos rivais. Inevitavelmente, eles farão piadas. E só farão porque o Flamengo deu vexame. Enquanto retrucarmos provocações apontando rebaixamentos, ou o que quer que seja, continuaremos fracassando. Cutucar a ferida dos outros faz com que não sintamos a nossa. Sem sentir nossos erros, jamais aprenderemos com eles. Por isso que a mesma desculpa é dada ano após ano. Porque o flamenguista se esforça para disfarçar a dor de hoje, em vez de buscar um jeito para que não doa amanhã.

Dói perder, dói ser eliminado e dói demais dizer isso, mas sim, o Flamengo é uma vergonha continental. E se o outro foi rebaixado, tem menos título, não interessa. Um time com a grandeza do Flamengo, com a história do Flamengo; o clube que a gente ama não pode acumular tantos vexames em competições internacionais.

Vale lembrar que caímos no grupo da morte não por azar, mas em consequência de nossos fracassos. Dos 28 clubes classificados diretamente à fase de grupos da Libertadores, o Flamengo era apenas o 17° no ranking da Conmebol, atrás de todos os brasileiros (à exceção da Chapecoense) e dos possantes Emelec, Libertad, Guaraní-PAR, e Sporting Cristal. Ficamos no “pote 3”, ao lado de Zamora, Godoy Cruz e Melgar. Nem San Lorenzo, nem Universidad Católica. O Flamengo era o time forte que estava no pote dos fracos.

E só ficou no pote dos fracos porque, das 5 Libertadores disputadas nos últimos 10 anos, foi eliminado na fase de grupos em duas, nas oitavas em outras duas e caiu nas quartas em uma. Fator comum em todas as eliminações? Soberba.

Achamos que seria fácil contra Defensor (7) e León/Bolívar (14), que já havíamos vencido América-MEX (8) e Olimpia (12) e que um raio não cairia duas vezes no mesmo lugar contra a Universidad de Chile (10). Mesma Universidad de Chile que, no ano seguinte, meteu 4x0 no Engenhão, pela Sul-Americana, competição da qual fomos derrotados, em casa, pelo “poderoso” Palestino no ano passado.

Vai além do futebol jogado. Não é questão de técnico, goleiro, atacante. É uma coisa da instituição Clube de Regatas do Flamengo e tudo que ela envolve. Perdemos com Adriano, Petkovic e Vágner Love; com Ronaldinho Gaúcho, Thiago Neves e Deivid; e agora com Diego, Guerrero, Trauco, Rômulo e Arão. De novo, a soberba – o chamado “salto alto” – imperou.

Imperou quando aceitamos perder 2 jogos fora de casa. Em vez de se atentar aos males da derrota, o Flamengo preferiu ficar satisfeito porque havia “jogado bem”. Se tivesse ao menos empatado um desses jogos, hoje estaríamos comemorando. O único adversário realmente superior ao Flamengo foi o San Lorenzo dessa quarta-feira. E foi superior porque imaginamos que seria impossível o combalido Atlético-PR ganhar da Católica no Chile. Acovardados, deixamos o San Lorenzo jogar e, mesmo sem lutar pela vitória, abrimos o placar. A Católica também, e aí o salto cresceu uns 4 metros. Se o Flamengo do primeiro tempo jogou apenas para não sofrer gol – e ainda foi presentado com um –, o do segundo tempo jogou para ver o tempo passar. Ele passou, trazendo 3 gols do Atlético-PR e 2 do San Lorenzo, o derradeiro no último minuto. Mais uma vez, estamos fora.

Esse acúmulo de eliminações desastrosas tem nome: vergonha. Com toda sua grandeza, com a maior torcida do mundo, o Flamengo consegue não fazer mal a ninguém em torneios internacionais. É vergonhoso demais.

Não podemos ignorar isso, não podemos achar que, em uma Libertadores, o Flamengo é tão temido quanto Boca Juniors, River Plate ou até mesmo Santos, São Paulo, Internacional. Eles fazem por onde despertar temor; nós, não. É duro, é triste, mas o único jeito de mudar esse panorama é assumir que ele existe. É verdadeiro.

Somos Flamengo, somos o maior clube do planeta. Não podemos nos contentar com pouco. Não podemos aceitar vexames porque Vasco, Fluminense e Botafogo colecionam rebaixamentos. O fato de o time de 1981 ter ganhado tudo não pode nos deixar acomodados. Temos de ganhar tudo de novo. Temos de querer ganhar tudo de novo!

“Iiih, Libertadores qualquer dia tamo aí” é o caral*. O Flamengo tem de querer ser campeão. Chega de comemorar migalha, sonhemos e lutemos pelo filé. Nada de sair do estádio cantando “Melhor do Rio” porque o Flamengo subiu de 9° para 7° na tabela. Rivalidade é legal, sadio, mas é inadmissível que a torcida celebre uma 12ª colocação no Brasileiro, como fez em 2015, só porque terminamos à frente dos rivais cariocas - 5 times de SP, 2 de MG e RS, Sport e Atlético-PR fecharam aquele ano acima do Flamengo.

Eu não ficava tão mal com futebol desde a derrota para o América-MEX. Sinto-me culpado por ela até hoje, achei que já estávamos classificados. Ali aprendi que não existe jogo ganho e que time e torcida do Flamengo sempre serão reflexo um do outro.

Faltou sangue nos olhos a nosso treinador e jogadores porque faltou em nós. No Maracanã não, mas fora de casa o Flamengo sorriu com duas derrotas e desdenhou do improvável, na última rodada. Justamente o Flamengo, pentacampeão brasileiro sem nunca ter feito a melhor campanha antes do mata-mata, no modelo antigo. Justamente o Flamengo, campeão mais improvável da era dos pontos corridos.

Voltei a chorar pelo Flamengo depois de quase 8 anos. A última vez havia sido de alegria, com o hexa, naquele sublime 2009. Quando só a vitória interessava, quando a gente guardava o ingresso em vez de tirar selfie, quando o grito de gol valia mais do que o meme. Ali não existia “cheirinho”, reinava o bom e velho “deixou chegar” e o lema para a arrancada foi “O Flamengo é maior que tudo e todos”.

Essa é a mais pura das verdades. Cabe a nós, Flamengo, fazê-la valer.

O clube que a gente ama não pode acumular tantos vexames em competições internacionais.

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