Flamengo é eliminado por sua própria culpa.

Guerrero durante San Lorenzo x Flamengo pela Libertadores - Foto: Staff Images
CARLOS EDUARDO MANSUR: Dizem que é a presença constante em competições internacionais que faz um time moldar um caráter suficiente para ser campeão. Se for verdade, é bom o Flamengo fazer valer sua exaltada — com justiça — recuperação financeira para manter-se sempre entre os melhores do Brasileiro e frequentar a Libertadores com assiduidade. Ontem, assim como nas últimas duas participações, deixou a competição na primeira fase numa atuação típica de um time deslocado no cenário: na hora da pressão, de decidir, foi acuado até sofrer o gol da virada, dos 2 a 1 do San Lorenzo, nos acréscimos. Como se lhe faltasse a personalidade suficiente para tal tipo de compromisso.

E pagou o preço com requintes de crueldade. No fim do jogo em Santiago, o Atlético-PR encontrou a vitória sobre a Universidad Católica, por 3 a 2. Das nove combinações possíveis de resultados dos dois jogos do Grupo 4, aconteceu a única que eliminava o Flamengo. Em grande parte, por sua própria culpa. Diante do investimento e do desempenho na hora mais importante, o trabalho do futebol rubro-negro ficará em xeque pelo resto do ano.

É justo um time confiar em algumas virtudes que desenvolve. No caso do Flamengo, uma delas é a ótima organização defensiva. Zé Ricardo deu a este time a capacidade de se defender bem. No entanto, por mais que se sinta confortável enquanto a bola está no pé do adversário, por mais que acredite no seu poder de negar espaço ao rival, há um limite do bom senso. Bolas que rondam demais a área expõem um time, por melhor que seja sua capacidade defensiva, a uma série de eventos menos controláveis. Uma falha individual, uma rebatida errada, uma bola espirrada. Lances assim levaram o San Lorenzo à virada no segundo tempo. Primeiro no gol de Angeleri, aos 29 minutos, após bola perdida por Matheus Sávio na lateral da área. E depois no gol de Belluschi, após uma sucessão de disputas na área, aos 46. O golpe fatal.

E o fundamental: o futebol tem a peculiaridade de permitir vencer com  diversas estratégias. Mas que costuma não perdoar a renúncia ao jogo. Em Buenos Aires, não perdoou o Flamengo e seu segundo tempo, um misto de especulação deliberada e falta de capacidade de controlar o jogo com a bola.

A sensação que ficou do primeiro tempo foi de que havia uma partida desenhada na cabeça do técnico Zé Ricardo. Em parte, este jogo ocorreu. Apostou num time com mais velocidade do que retenção de bola, com Gabriel de meia, além de Berrío e Éverton pelos lados. Foi o bastante para dar ao Flamengo a vitória parcial. Num contragolpe rápido, surgiu o córner e, em seguida, o gol do lateral Rodinei. Seu terceiro gol seguido num jogo importante.

O pecado, àquela altura, já era ter pouco acerto nos passes para encaixar mais contra-ataques, respirar, evitar que a bola rondasse tanto a área. Por exemplo, nos primeiros 15 minutos de jogo, quando aconteceu uma pressão forte que, a rigor, já era prevista, o Flamengo sofreu. A partir do gol, conseguiu controlar mais o jogo, embora fosse para o intervalo já vendo os argentinos muito presentes em seu campo. Ainda que a sensação de gol iminente não fosse percebida.

Em vantagem, o Flamengo viu Márcio Araújo, Willian Arão e Gabriel conseguirem reter a bola, dar ao time um pouco mais de controle do jogo. Para um time moldado para correr mais do que cadenciar, era até uma boa surpresa.

O segundo tempo, no entanto, raramente teve um Flamengo à vontade em campo. Os sinais de que o time se apegava demais à vantagem se tornavam preocupantes. A primeira mexida de Zé Ricardo até surtiu efeito, com a entrada de Rômulo no lugar de um Berrío que corria, mas abusava dos equívocos sempre que precisava tomar decisões. Por alguns instantes, o Flamengo trocou passes e aliviou a pressão. A partir daí, no entanto, tudo o que foi tentado deu errado.

Matheus Sávio substituiu Gabriel e pareceu assustado. Não havia mais válvula de escape e, após sofrer o empate, foi raro ver o Flamengo com a bola no campo rival. As atenções da torcida passaram a se dividir entre os dois jogos da noite. Eram 35 minutos em Buenos Aires quando o Atlético-PR empatou em Santiago. Um gol tiraria o Flamengo. Pareceu um alívio a notícia, três minutos depois, do empate da Católica. Mas, a cinco minutos do fim de seu jogo, o torcedor do Flamengo soube que o Atlético-PR vencia novamente.

O efeito pareceu devastador. Zé Ricardo colocou Juan no lugar de Éverton, abdicou de jogar e confiou na capacidade de a defesa rebater bolas. A última delas não foi rebatida. Fim de Libertadores.


Para um time moldado para correr mais do que cadenciar, era até uma boa surpresa.

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