Esposa revela que Cléber Santana chorou em adeus ao Flamengo.

Foto: Alexandre Vidal
GLOBO ESPORTE: "Ele saiu chorando do Flamengo. Nunca o vi sair chorando de time nenhum". Assim Rosangela Loureiro, viúva de Cleber Santana, apaixonada até hoje pelo companheiro, descreve a paixão de uma das vítimas do acidente da Chapecoense. Neste sábado, às 19h, no Serra Dourada, Atlético-GO voltam a duelar pelo Brasileirão após cinco anos. O último encontro aconteceu no mesmo local, e o Fla venceu por 2 a 1 numa grande tarde de Cleber, que estreava pelo clube de coração.

Cleber, à época com 31 anos, comandou a virada. Fez um golaço, com direito a caneta em Pituca. O zagueiro Gilson nem o viu antes de tabelar com Love e tocar na rede. Como o jogador havia chegado há pouco na Gávea, Rosangela ainda não acertara sua mudança para o Rio porque os filhos, Clebinho e Aroldo, estavam no colégio. De Florianópolis, onde ele defendia o Avaí antes de se transferir para o Fla, a viúva recebeu uma radiante ligação do marido.

- Ele me ligou numa felicidade... Dispenso comentários sobre a felicidade dele. A felicidade dele não era só por um gol pelo Flamengo. Não entendo de futebol, mas ele estava tirando o Flamengo de situação ruim. Ele dizia: "Deus é maravilhoso" numa felicidade. Família toda ligando para ele. Ele tem muito amor pelo Flamengo, assim como meus filhos têm - conta Rosangela, tratando o amor de Cleber pelo clube como se ele ainda estivesse vivo.

Rosangela está certa. Com um gol e participação efetiva no marcado por Liedson, encerrou jejum de sete partidas sem vitórias do Flamengo no Brasileirão 2012. Mas a alegria de vestir aquela camisa, segundo a esposa, era constante e crescia a cada triunfo.

- Cada vitória pelo Flamengo na presença de Cleber, ele chegava numa felicidade tremenda, notava que era diferente. Notava diferença para os outros clubes que jogou. Tinha orgulho demais daquele time. Quando foi embora, chorou muito. Estou escrevendo o livro da minha história de vida e da dele e falo sobre isso. Tem gente que pensa que os jogadores só são mercenários, que só vão embora por causa de dinheiro. Ele foi obrigado a ir embora porque o Fla não tinha como pagá-lo.

A paixão do pernambucano Cleber pelo clube mais popular do Brasil é comprovada com vídeos gravados por ele em 2015 e 2016, nos quais canta a música "Mengo, Mengo, Mengo", do MC Buchecha. Em ambos, defendia a Chapecoense.

- Nos vídeos que tenho, ele está cantando essa "Mengo, Mengo, Mengo" e domingo... Com o tambor na mão, foi aqui em Chapecó, no aniversário dele do ano passado. Esse dele cantando no karaokê com a cerveja na mão era em minha casa de praia. Geralmente quando fazia festa sempre cantava músicas do Flamengo (risos). O da casa de praia foi no Natal de 2015. (veja acima)

Confira outros relatos de Rosangela sobre o amor de Cleber pelo Flamengo:

Cleber sofreu muito com a saída?
Foi obrigado a ir embora do Flamengo porque o clube não tinha condições de pagar o salário dele, e eles devolveram a mercadoria para o Avaí. Ninguém sabia o quanto estava sofrendo. Por ele, tinha ficado, mas tinha família e precisava pensar no futuro. A idade passa, se você não souber fazer a vida em cada time, se complica.

E como foi acompanhar tudo isso?
Lembro dele chorando com Renato Abreu e outros jogadores. Fiquei passada porque nunca vi ele chorando. Têm muitos jogadores que mudam de time por causa do valor, mas o coração sai partido. Partido no meio: um lado é felicidade, outro de tristeza por gostar do time. Ainda mais ele, que era louco pelo Flamengo.

Aquele gol foi marcante, né?
Foi um dos gols mais comentados. Eu ia para o Rio de Janeiro, e as pessoas falavam: você salvou o nosso Mengo, e eu via o orgulho dele pelo Flamengo. Passou pouco tempo no clube, mas foi muito feliz. Tinha orgulho daquele time e daquela camisa que vestia. Se o clube tivesse condição, ele ainda ficaria por muito tempo.

O que ele sentiu com o gol contra o Atlético-GO?

Nos olhos dele, você via a felicidade com ele correndo e comemorando. Era muito Flamengo. Era apaixonado pelo Flamengo. Eu tinha as camisas do Flamengo e tinha hora que eu queria vestir, mas dizia: "Amor, você não pode vestir essa camisa não. Como você vai vestir se eu jogo por outro time?" (risos). Eu queria vestir, mas ele pensava como profissional.

De Florianópolis, onde ele defendia o Avaí antes de se transferir para o Fla, a viúva recebeu uma radiante ligação do marido.

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