O erro e a reação em cadeia.

PAPO DA NAÇÃO: Por Mateus Garcia

Depois de semanas assombrosas para o time Rubro-Negro, parece que finalmente reencontramos os eixos e conseguimos jogar com decência e taticamente de forma eficiente numa partida que foi capaz de reabrir os sorrisos daquele que torce pro Mais Querido. Os erros, entretanto, não podem ser repetidos. Eram pequenos detalhes que faziam toda a diferença em campo e nos transformavam de um dos times mais envolventes do Brasil para um time monótono, sem graça, pragmático e completamente previsível e invariável.

Ao se analisar o time do Flamengo de algumas semanas atrás até o jogo do Atlético Paranaense, percebemos uma equipe completamente perdida em campo. As críticas dos torcedores começaram a ecoar, deixando o técnico Zé Ricardo sob pressão.

Era sempre o mesmo jogo. Quando não eram dois pontas muito abertos e com apoios distantes dos meias, principalmente nas ausências de Diego pela convocatória, era Mancuello aberto pela direita que por outras razões, pouco conseguia se deslocar para espaços mais contundentes do campo, sempre precisando ocupar espaços fora da área ou em zonas muito abertas em campo, por vezes precisando recuar para buscar o jogo, claramente mostrando aspectos que não são compatíveis com suas características incisivas de um meia bastante agressivo.

A designação feita por mim de que Mancuello seja um meia agressivo pode ter soado estranho, já que é nítida a pouca movimentação e pouca participação efetiva nos ataques mais perigosos nas últimas partidas em que o mesmo participou, mas isto se dá a diversos fatores, sobretudo pelo principal erro tático cometido pelo time do Flamengo: o posicionamento de Willian Arão.

A função de um meia central numa formação 4-2-3-1, ou o popular "Segundo Volante" no Brasil é de promover a ligação defesa-ataque na saída de bola e manter a consistência defensiva junto ao volante do time (atualmente Marcio Araújo). A tal consistência defensiva é um ponto positivo para o camisa 5. Com exceção de jogos atípicos como o 3x3 contra o Fluminense, podíamos ver as duas linhas de 4 bem montadas e um time com sistema de coberturas bastante sólido. Desde que Zé assumiu, a defesa tem sido algo ótimo taticamente. Mesmo com erros individuais ocasionais, quase sempre os jogadores conseguem fornecer cobertura necessária para rejeitar os ataques adversários. Mas o problema continua no ataque. A transição defesa-ataque que Arão precisa fazer é péssima.

Como principal construtor, Arão precisa servir de apoio em todas as fases do jogo, seja na saída de bola, à armação, podendo aparecer na finalização. O grande problema é que a todo momento ele busca o fundo, funcionando quase como um segundo atacante, e isso não interessa se a bola está com Diego, Marcio Araujo ou Rafael Vaz. É comum vermos em qualquer lance ter Rafael Vaz fazendo a saída de bola, no meio campo, enquanto Arão vai correndo entre os defensores com o braço levantado. O zagueiro, com suas manias de lançamentos, sempre busca essa opção, que por obviedade, sempre cai nas mãos dos goleiros. O erro maior neste lance não é necessariamente forçar um lançamento, mas sim abandonar sua função básica, a de apoiar. Ao avançar para o ataque quando a bola está na defensa, Arão sempre deixa um buraco enorme no meio campo, enquanto Marcio Araujo entra na defesa corretamente para fazer a lavolpiana. Ficam Réver, Vaz e Marcio lá atrás e o resto do time afundado no campo de ataque, e isto é o que acaba resultando no grande número de chutões e jogos diretos realizados principalmente pelos defensores, também sobrecarregando o meia ofensivo, tendo que cumprir diversas funções no campo.


Repare no erro de posicionamento de Willian Arão (marcado em vermelho) no lance clássico do erro de Rafael Vaz (e que também ocorreu momentos depois, no erro de Márcio Araujo, muito parecido). Ao ter  se posicionado na região aberta do campo, deixou seu setor livre e gerou um imenso espaço no meio campo. Podemos facilmente contar cinco jogadores tricolores naquela zona central contra nenhum do Flamengo. A superioridade numérica é o que facilitou a roubada de bola e retomada num contra-ataque perigoso. Tem de se tornar explícito, também, que houve um erro de tomada de decisão de Rafael Vaz, óbvio, mas não é critério pra julgamento de táticas quando falamos de erros técnicos individuais.

Este erro de posicionamento também causa incompatibilidade com a função de Mancuello. Se Arão quer ser o jogador que ocupa espaços, o que deveria ser responsabilidade do argentino, pela função do Raumdeuter, explicada num dos textos mais bem-sucedidos de nosso blog (caso não tenha visto, Leia Aqui), acaba que ambos se chocam a todos os momentos, e a responsabilidade que deveria ser de Arão, por ninguém é feita, gerando esse enorme rombo no meio de campo como pode ser visto na imagem. Esta incompatibilidade também é o que ocasiona a falta de criatividade no meio, uma vez que, além de faltar jogador na construção (etapa em que o jogo se desenvolve), aquele que deveria fazer a dobra na armação com o meia ofensivo e auxiliá-lo a não sobrecarregar o seu jogo, acaba sendo limitado no jogo.

O que pode mostrar muito claro que o simples ajuste e correção nessa movimentação do meia rubro-negro é o gol de Berrío no fatídico 2x2 contra o Vasco. Arão, bem posicionado, foi quem apareceu para dar um belíssimo passe para o colombiano driblar um defensor cruzmaltino e chutar forte no canto do goleiro Jordi.

Com Arão (marcado em vermelho) bem posicionado, a transição defesa-ataque tende a ser mais qualificada porque ele se apresenta entre as linhas defensiva e ofensiva, pela zona central, onde pode ligar o jogo pelo chão, sem necessidade de lançamentos ou chutões. Neste lance, ele recebe a bola de Vaz e rapidamente passa para Berrío fazer o gol.

O que podemos tirar disso não é que Arão é um jogador ruim ou algo do tipo, muito pelo contrário. Sabemos que trata-se de alguém com muita qualidade técnica, ótima visão de jogo e exímio nos desarmes, muito difícil de ser passado no mano-a-mano. A questão é que se for continuada essa sequência de erros, acredito que seja hora de sacá-lo, pelo menos para que o atleta entenda que algo precisa ser melhorado. Substitutos existem: tanto Ronaldo, que pode ser improvisado na função, como Lucas Paquetá, ou até mesmo Mancuello, mas se conseguir voltar a jogar o futebol da primeira metade de 2016 que deixou os flamenguistas esperançosos de um novo craque, como conseguiu fazer, pelo menos uma vez no ano, contra o Atlético Paranaense na Libertadores em pleno Maracanã, corrigindo o grande erro, veremos um dos melhores meio-campistas do futebol brasileiro.

Sobretudo pelo principal erro tático cometido pelo time do Flamengo: o posicionamento de Willian Arão.

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