E agora, que faço eu da vida sem você (Diego)?

Gazeta Press
ESPN FC: Por João Luis Jr.

Poucas camisas no mundo pesam tanto quanto a 10 do Flamengo. Mais do que um meia de talento incomensurável, mais do que o maior artilheiro do clube, mais do que o segundo maior jogador brasileiro da história e um dos melhores batedores de falta do mundo, Zico é dos mitos fundadores da fé rubro-negra.

Não só por ser o maior nome da nossa geração mais vitoriosa, toda ela composta de jogadores que sozinhos já seriam ídolos em qualquer outro clube, mas por ser um verdadeiro divisor de águas na história do clube. Não temos provas físicas de que naquele mês de março de 1953 algum rei mago foi guiado por uma estrela cadente até Quintino, mas é fácil perceber que a história do Flamengo se divide em antes de depois de Zico.

Esse é um dos motivos pelos quais é tão complicado ser um camisa 10 no Flamengo, porque, de uma forma ou de outra, você vai estar sempre sendo comparado a um dos maiores do mundo. É como ser um ator, mas só fazer remakes de filmes do Marlon Brando; um cantor cujo repertório é só Frank Sinatra; um pintor que vive de cópias de Van Gogh. Por que nos decepcionamos tanto com os jovens meias que sobem da base com a fama de “novo Zico”? Porque é como se víssemos um coroinha ajudando bem numa missa e falássemos “Viu o jeito como aquele ali leva a hóstia pro padre? Tá na cara que tem potencial pra ser um novo Jesus".

E as decepções foram muitas. A nossa camisa 10, tão simbólica e tão importante, ainda que já tenha tido alguns sucessores dignos, como Adriano ou Petkovic, se acostumou mais a penar nas costas de jogadores que possivelmente não mereceriam nem mesmo um colete sem número tendo apenas, escrito à mão, algo como “pelada dos amigos do sitio do queiroz”. Jogadores como Lucas Mugni, Walter Minhoca, Carlos Eduardo com certeza fizeram vários de nós pensarmos que certos números deviam ser aposentados, nem tanto pelo simbolismo, mas porque estavam trabalhando em condições absolutamente insalubres e de alta periculosidade.

Mas aí eis que surge Diego. Exilado na Turquia, o meia surgido no Santos chegou já nos braços da torcida, que tratou sua simples chegada como uma final de campeonato. E não demorou pra mostrar que não apenas tinha valido a pena ir até o Santos Dumont, como teria valido mesmo se precisássemos ir buscá-lo de táxi em Istambul. Meia cerebral, camisa 10 clássico, Diego veio pra ser o pacote completo. Gols, passes, raça, categoria, dedicação, ídolos das crianças, respeitado pelos homens e pelas mulheres. Sabemos que nunca mais alguém vai ser o Zico, mas Diego veio para ser o Diego e descobrimos que isso já é bom demais.

E agora com, uma lesão no joelho que vai deixá-lo de fora por seis semanas durante o período decisivo do Flamengo na fase de grupos da Libertadores, é hora de ver como o Flamengo se sai sem o seu craque. Se Mancuello pode realmente atuar em alto nível na armação de jogadas, se Matheus Sávio é o meia que promete ser, se Paquetá pode transformar seus gols bonitos em rotina, se Zé Ricardo tem alguma solução ousada pra ser tirada da cartola, como mais um lateral na armação - Zé Ricardo adora laterais.

Diego é uma parte muito importante do Flamengo de hoje, mas o Flamengo de hoje precisa ser muito mais do que Diego. E, claro, também é hora de torcer pela recuperação do nosso meia, porque, quando ele voltar, existe uma certa camisa 10, separadinha, esperando por ele.

Esse é um dos motivos pelos quais é tão complicado ser um camisa 10 no Flamengo.

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